Lockdown

É tradição dos grandes dicionários escolherem um vocábulo para representar o ano. Lockdown foi eleita pelo dicionário Oxford como a palavra de 2020. O termo deve demonstrar o “humor das preocupações do período” nos ensina o tio Google. 

As matérias sobre o assunto relatam o trabalho dos pesquisadores envolvendo mais de 150 milhões de palavras, mas não mencionam uma letra sequer sobre as perdedoras. Claramente, lockdown teve concorrentes de peso, não foi eleita, digamos assim, no primeiro turno.

Assim, como nas eleições de políticos, só temos olhos para quem ganha. Desclassificados ficam de fora, ainda que, às vezes, ganhe um desclassificado. 

Perdoem-me esse jogo de palavras para falar de uma, mas alguém duvida terem sido pandemia, quarentena, contágio e, claro, o próprio nome do vírus concorrentes fortes? Eleições são assim, nem sempre ganha o melhor.

Mas, voltemos ao dicionário Oxford. Lockdown mereceu a vitória.  Não sei os franceses, sempre tão cuidadosos com o idioma, mas o termo pegou em muitos países. As oito letrinhas ganharam o mundo. 

Aqui, não foi diferente, quase não ouvimos falar em confinamento. Lockdown circulou livremente. Terá sido esse o problema de tantas pessoas não respeitarem o pedido para ficarem em casa? 

Se já é difícil entender alguém de máscara falando, imagina em outro idioma? A exceção, claro, fica por conta da maioria dos políticos. Esses se comunicam bem, mas, falta-lhes o bom hábito de honrar com suas palavras.

Ainda que a empenhem, sabemos, são jogadas ao vento. Devíamos colocar alguns em lockdown para sempre. 

Mas esse é um texto sobre a eleição da palavra do ano por um dos dicionários mais tradicionais e dou minha palavra, não vou mais tangenciar.

Minha crítica quanto à escolha de Oxford diz respeito à inadequação de eleger um único termo. Um ano tão atípico como 2020 cabe mesmo numa palavra? Parece tão apertado quanto o elástico atrás das orelhas. Até mesmo uma frase seria insuficiente, talvez um apanhado mensal. Então, deixo minhas sugestões:

Janeiro – Este ano, promete! 

Fevereiro – Vai para onde no Carnaval? 

Março – Que absurdo, todo mundo enchendo o carrinho de compras.

Abril – Que imagem! Parece a natureza pegando seu lugar de volta. 

Maio – Se a humanidade não aprender alguma coisa com tudo isso… 

Junho – Não aguento mais lavar pacote de biscoito.

Julho – Foi de Covid? 

Agosto – Engordei tanto…

Setembro –Que horas é a live?

Outubro – Você ainda esquece? Volta para pegar a máscara!

Novembro – Travou. Seu microfone tá mudo. Travou de novo.

Dezembro – Eu tô em casa, mas o povo…Olha, a praia tá cheia.

Tenho certeza: você ouviu ou falou a maioria dessas frases. Deixei de fora a representante-mor: “Nossa quem podia imaginar uma coisa dessas?”. De tão repetida, ninguém aguenta mais, virou prima-irmã da expressão “novo normal”.  Merecem o troféu álcool gel! 

Espero que, em 2021, tenhamos uma palavra mais feliz para nos representar. Algo como Otoplastia. O que significa isso? Cirurgia plástica para acertar orelha de abano. E o que significaria isso? Que não estaremos mais usando máscaras porque a vida retomou seu rumo, estaremos apenas consertando os “estragos” de 2020.

 

Martha Gonzalez escreve, quinzenalmente, no www.clubedecronicas.com.br e também está cansada de usar máscara, mas não vai deixar de usá-la por causa disso.

Primavera, 2020

Imagem gratuita: Pinteres

 

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