A honra de um guerreiro

“Lui è un guerriero, vuole morire da combattente.” Ao pronunciar essa frase, deixava em dúvida se falava de Merhidian ou de si próprio. Ambos em batalha contra doenças destruindo as muralhas internas do corpo, avançando continuamente sobre território alheio. Uma guerra enferma, na qual as razões de origem se perderam em outros combates numa luta constante pela vida.

Luisa estava ali como espectadora de algo sórdido. Sentia o coração ferido numa dor latejante. Caberia a ela tomar a decisão de pôr um fim àquela batalha, a de Merhidian. Entretanto, inebriada de emoções avassaladoras, não conseguia ver uma decisão racional para aquele sacrifício.

Merhidian nasceu na França, em 9 de maio de 1978. Um exuberante cavalo árabe de cor branca. Por natureza, um animal elegante e resistente. Mas, genioso ou arisco, diriam alguns.

Jean Claude também é francês, se fez domador e, juntos, fizeram uma viagem até a Península Arábica. Uma montaria, realizada entre os anos de 1983 e 1987, que remeteu aos antepassados do equino. Um percurso que rendeu reconhecimento e difundiu o animal ao mundo. Um ser admirável.

Quando imigraram para a Itália, conheceram Luisa: amante de cavalos, defensora de animais livres como em natureza, idealizadora de um aconchegante haras nas montanhas piemonteses. Algum tempo depois, Jean Claude presenteou Merhidian a Luisa.

Entre Luisa e Merhidian, formou-se bela parceria, que renderia anos. Juntos, venceram vários desafios, inclusive o de se comunicar, não por meio de palavras, mas por gestos e atitudes. Algo da alma, numa relação harmoniosa entre duas espécies diferentes.

E agora, ver Merhidian, pouco depois de completar 36 anos de vida, gemendo, debatendo-se de dor, mas movendo-se ainda como guerreiro, mantendo-se imponente e em pé, faz-se refletir histórias, acontecimentos e desacontecimentos. Faz-se espelho da vida, da dignidade de se manter de cabeça erguida ainda que no fim. Faz-se discutir escolhas, apesar de brutais.

Se existe beleza na morte, ainda não encontrei algo para me convencer de tal. Talvez a minha existência, ignorância, andanças, crises existenciais ou pensamentos suicidas possam me deixar confusa ao assunto. A morte é um mistério em forma de receio.

Lembro que a atração, a euforia, o temor e as emoções que senti quando, pela primeira vez, estive com Merhidian, pouco anos atrás, despertou em mim a beleza de algo misterioso, oculto às minhas capacidades mentais. Quiçá porque a quem seja um imigrante, encontrar um velho cavalo imigrado possa despertar contextos de uma cavalgada, desta caminhada chamada vida.

Luisa deveria decidir um sacrifício. E, por mais que compreendia a dor daquele animal, ela sabia que seria o fim de uma relação iniciada lá em 1992. Era preciso coragem para apagar a luz que brilha aos olhos de um ser amado. Mas, como decidir que este outro deve adormecer eternamente? Não há respostas para questões assim. Pode até parecer irracional ou egoísta, nas palavras de alguns. Mas, de fato, ainda somos seres apegados à vida.

Sem dúvida, necessitamos do outro para reconhecermos a si próprios. Embora seja ele um animal de outro gênero, quando se está no meio de outros bichos entende-se facilmente que somos muitos mais próximos do que se imaginávamos. Bem como disse Sebastião Salgado, ao referir-se a uma iguana como uma prima distante.

Quando Jean Claude disse que Merhidian é um guerreiro, e por isso deveria morrer como um lutador, lembrou-nos que a capacidade de vencer desafios e a habilidade de não desistir é o que nos move a viver. Lembrou-nos, também, do poder de não se entregar facilmente e, se ainda formos capturados, permaneceremos dignos de nossos atos. E talvez assim, na morte se faz, então, a honra de se viver.

(Final de 2014)

PS
A batalha de Merhidian terminou no fim de 2014. O combate de Jean Claude, no início de 2016.

Foto: Paula da Silva (www.pauladasilva.eu)
Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras

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