A mulher, o homem e a bicicleta

Quando criança, não desejava ser uma menina: queria uma bicicleta. Enquanto o avô dizia que bicicleta é para meninos, ela se questionava para descobrir como aquilo era possível. Ganhou duas pulseiras de ouro e, junto delas, a afirmação: “Isso é para meninas”. Sentia-se mal. Gostaria de saber o que havia de errado consigo mesma.

Acreditava que o deus profetizado era um homem e, por isso, tinha dado aos indivíduos do sexo masculino todos os direitos do mundo. E, claro!, feito as criaturas do sexo feminino para servirem aos homens. Ela cresceu conhecendo tudo de proibido para meninas. Sentia vergonha e odiava ser uma garota.

Queria um boné, não um lenço; uma bermuda, não uma saia; jogar futebol, não limpar a casa, cozinhar, lavar ou passar; apenas ser livre como um garoto. Estava cansada de ouvir: “Isso não pode.” “Aquilo não convém.” “Não é para meninas.”

Sentia inveja dos meninos. Sabia que meninas não significavam nada. Sentia-se tão acanhada em ser mulher a ponto de perceber que até um carneiro tinha mais valor. Seus questionamentos internos eram repletos de rancor ao deus prenunciado e ao livro sagrado.

Sentia raiva e angústia em ser mulher. Que deus é esse que proíbe as mulheres de serem felizes? E as impede de sentirem prazer? Excomunga algumas por manifestarem ideias? Extermina outras por revelarem opiniões diversas? Castiga outras mais por estas decidirem, por si próprias, o que querem da vida?

Onde está escrito que mulher não pode ser livre para estudar? Onde está determinado de antemão seu destino? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê? Para que se proclamou o que uma mulher não pode?

Bom, um dia, ela foi morar em um país abaixo da linha do mar. Mulheres pedalando! Ser mulher é ser livre? Com o tempo, aprendeu o que é mulher, sentiu-se mulher. O mundo dela mudou e ela se encontrou. Renasceu, ainda que, com todas as dores de um parto.

Quando li a história de H. Sezer, vencedora de um prêmio holandês de redação, pensei nas várias Sezer que conheço. Cada uma em particularidades, mas similares nas entrelinhas da vida. Reconto a história dessa mulher e acrescento questionamentos de outras que descobriram, ou ainda estão descobrindo, o próprio poder.

Algumas, quando escolheram ser livres e se contemplaram enquanto mulheres, causaram desonra a família. Outras foram deserdadas. Poucas são respeitadas. Muitas acreditam que ganharam a vida. Ou, simplesmente e maravilhosamente, existem.

Julho de 2016

Ilustração: Vrouw op fiets, Duoart
http://duoart.nl/nl/content/gallerij/detail/?s=126

Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras.

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