Um resgate emocionante

Neste fim de semana, o Parque Botânico da Vale, em Vitória, Espírito Santo, está sediando um encontro de observadores de pássaros – AvistarES. Sempre fui profunda admiradora de aves (em liberdade, claro!).  O assunto me fez lembrar um caso ocorrido em dezembro de 2013, que virou notícia nacional: o resgate de um passarinho após três dias preso a um fio de alta tensão, num bairro residencial, também na capital capixaba.

Durante todo aquele tempo, ele foi alimentado por outro pássaro. Uns diziam que era a sua mãe. Mas pode ter sido apenas uma ave que, passando pelo local, ao perceber a angústia do bichinho, resolveu ajudá-lo. Alimentar um estranho é, sem dúvida, um ato de solidariedade difícil de encontrar entre os humanos.

Preso pelo pé, de cabeça para baixo, piava alto, mas ninguém dava atenção. Tanto insistiu que acabou sensibilizando um morador. Sem meios para liberar o pássaro, ligou para o Corpo de Bombeiros. Afinal, já tinha visto na televisão os corajosos profissionais resgatando gatinhos do alto de árvores.

Pensou: “Poderiam trazer uma escada bem grande e tirar a avezinha do alto do poste”. Não foi isso o que aconteceu. Os bombeiros disseram que o caso era competência da Polícia Ambiental. E o homem entrou em contato com os responsáveis pelo Meio Ambiente. Achou que, dessa vez, estava no caminho certo.

Qual não foi sua surpresa quando o policial (ou a policial, pois existem também mulheres que vestem farda) disse que não tinham estrutura para fazer o salvamento. Faltava exatamente o que há de sobra no Corpo de Bombeiros: escadas que possibilitem alcançar grandes alturas.

Decepcionado, mas não desanimado, conversou com outros moradores e comerciantes da região. Todos se engajaram na luta para salvar o animal. Podia muito bem ser um pássaro em extinção, alguém lembrou. Ou um filhote que prendeu o pezinho ao dar seu primeiro voo. Talvez, uma ave migratória que se perdeu do bando.

Nisso, foi juntando mais gente, e até a imprensa apareceu: repórteres, cinegrafistas, fotógrafos…, havia tantas pessoas reunidas que algum desavisado passando pelo local poderia pensar se tratar de um incêndio ou algo muito grave. E era grave mesmo! A vida de um pássaro estava, literalmente, por um fio.

Depois muito falatório, entrevistas, filmagens, ligações em vão para diversos órgãos públicos, alguém teve a brilhante ideia: “Quem deve ter uma escada grande é justamente o profissional que conserta fios de alta tensão! Vamos ligar para a Escelsa”.

Conseguiram o número com uma repórter (jornalista é profissional bem informado, tem de tudo em caderninhos. Ops! Isso era antigamente. Hoje, no celular.) e telefonaram para a companhia de eletricidade que, prontamente, atendeu ao chamado.

Finalmente, o passarinho, trêmulo de cansaço e muito assustado, foi retirado do alto do poste, sob aplausos da multidão. Ele foi levado a um veterinário pelo morador, que acabou, sem querer, virando um herói. Quanto à avezinha, espero que tenha se recuperado e conseguido voltar ao anonimato, à vida simples de um pássaro em liberdade.

Dezembro de 2013, atualizado em outubro de 2015.
Foto: Cristina Fagundes
Cristina Fagundes escreve aos domingos.
cristina@clubedecronicas.com.br

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