Anne

O restaurante passou abrir às 17h30. Ela costuma chegar por volta das 18h para garantir um lugar à mesa. Está sozinha e a garçonete pede permissão para eu dividir o pequeno quadrado com ela. Faz sinal de sim. Ajeita os óculos ‘fundo de garrafa’ e reclama que na maioria das vezes não reconhece com quem está a falar. Com uma feição ainda séria me olha com cuidado, analisa-me por inteiro. Esforça-se para escutar a minha voz e pergunta:

— Eu conheço você?

Balbuciei um melindroso, quero dizer, um tímido sim e ela continuou.

— Eu venho aqui todos os dias. Nesta mesa sentam pessoas do mundo inteiro. Todos os dias eu bate-papo com alguém. Escuto histórias jovens. Antes não era assim. Éramos quase todos velhos solitários com memórias. Compartilhávamos lembranças do passado. Agora somos de todas as idades com narrativas diversas.

Estamos em um estabelecimento destinado, antes, somente aos ‘nativos’ de uma certa idade. Ou melhor, aos moradores antigos de Amsterdam. Hoje, está repleto daqueles de diferentes épocas e de todos os cantos do mundo.

Anne frequenta o local há anos. Eu passei a ir lá acidentalmente, depois que meu parceiro descobriu o local com amigos. Empolgado, me disse:

— Aqui pertinho, há um lugar que serve comida como nos tempos da minha avó. Você vai gostar.

Dito e feito! Quem diz que, na Holanda, não há culinária gostosa é porque não conhece as iguarias originais da região.

Depois que me mudei oficialmente para Amsterdam, e passei a aprender o holandês, o local virou ponto de encontro ao lado de casa. Somos clientes. Mas o fato de frequentar o lugar não diz que somos íntimos dos que lá trabalham. Há um respeito entre todos.

Quem serve a comida, acompanha a evolução do meu novo linguajar, me ensinando novas expressões enquanto está atento às minhas preferências de pratos. Nos percebemos sem nos conhecer. Um local que, de alguma forma, me faz sentir parte do meu atual habitat.

Após o sabor da comida cair, literalmente, na boca do povo, há de se ter paciência para enfrentar a casa cheia. Ainda assim, o restaurante segue abertura de segunda à sexta, das 17h30 às 20h30. O último pedido deve ser feito até às 19h45. Sem chororô.

Um crítico de culinária aprovou o tempero lambendo os dedos das mãos. Compartilhou a opinião dele para os guias de viagem sobre a cidade. Pronto. A fome alheia foi aguçada.

Voltando à senhora…

De fato, já nos esbarramos algumas vezes na pequena sala. E trocamos palavras, frases, mas sempre de ligeiro. Desta vez, com a oportunidade de compartilharmos a pequena mesa, dividimos também alegrias, curiosidades, dúvidas, lembranças, pensamentos, receios, vontades… Vida.

Frente a frente, enquanto degustamos o que há de genuíno na culinária dos Países Baixos, refletimos nossas imagens no espelho da vida. Nossos anseios fazem o nosso percurso ser acidentalmente provocativo, doloroso e até frustrante. Mas, pela maioria das vezes, gratificante. As barreiras e conflitos estão presentes em qualquer fase da existência.

— Certas ocasiões, me pergunto quem são os pais desses jovens. Qual o passado dessas pessoas? Quem são? O que fazem? Com algumas, ainda consigo conversar. Entretanto, tenho vontade de saber mais — diz, girando o olhar pelo estabelecimento.

— O que deseja saber? — indago suavemente.

— São viajantes do mundo inteiro e de todas as línguas. Pouco tempo atrás, nossa liberdade foi reprimida pelos tempos de guerra. Hoje, estou no convívio com o desconhecido. Sinto que alguns podem ser filhos ou netos daqueles que destruíram parte da minha infância. Irônico, não?

Anne me olha em silêncio e leva a última garfada de batata cozida regada com ensopadinho de carne à boca. Ainda estou no início da minha refeição e deixo o tempo livre para ela decidir o que quer contar ou se deseja ser escutada.

Enquanto isso, ela apanha os últimos legumes no recipiente próximo ao prato. Trocamos mais algumas frases sobre a comida, local, movimento e atendimento. Nos sentimos em casa. Ela pede a sobremesa e, aos poucos, começamos a mergulhar intensamente em nossos guardados.

Descobrimos alguns países em comum pelos quais passamos. Damos uma volta no Brasil, relembrando peculiaridades e maravilhas daquela terra. Deparamos com a desigualdade, nos surpreendemos pelas opiniões similares embasadas em ideais sociais e antropológicos.

Discutimos política, comparamos nações. Cansamos da discórdia alheia e vamos buscar, em nossas memórias de cartões-postais, um lugar para relaxar. O Sol é rei absoluto e manifesta-se em nosso humor cotidiano. No inverno, sentimos falta dele e ela reclama que a idade a tem limitado na procura da sua luz.

Brincamos com as línguas em que podemos nos comunicar. Ficamos fascinadas em perceber como é divino o poder da comunicação, seja pela fala, gesto ou alimentação. Ainda assim, continuamos a conversa em holandês.

Anne foi o nome que me guiou a Amsterdam pela primeira vez. Eu vim para a Holanda apresentar um vídeo, mas só fui embora depois de visitar as marcas do passado. “O diário de Anne Frank” foi a história que me fortaleceu no sonho da escrita.

Ainda que tenha perdido o costume de fazer diários, ou de ter escrito quase nada, os cadernos espalhados pelos cantos ou os blocos de anotações são uma espécie de guardados e guias para as minhas ideias ou opiniões. Deveria escrever mais.

Já fui visitar a casa da Anne várias vezes, mas nunca tinha me encontrado com Anne.

A Anne que conheço não escreveu diário que virou livro. Todavia, é a adolescente que presenciou a invasão nazista em Den Haag — Haia, em português. A família dela, holandesa, fugiu para um esconderijo e sobreviveu. A casa, a rua, a praça e as memórias de Anne, enquanto criança, ficaram nos destroços da guerra. Quando a guerra terminou Anne tinha medo de sair de casa. Tinha medo dos “alemães”.

Na escola, foi obrigada a aprender alemão. Odiava e temia o idioma. Seus pais diziam ser necessário seguir adiante e conhecer a língua do inimigo. Com o tempo, aprendeu outros idiomas com os quais desejava ser amiga. No decorrer dos anos, a vida de Anne seguiu o rumo que melhor lhe foi adaptado.

— A senhora ainda tem medo de alemão? — pergunto com cuidado.

— Sabe, a vida me ensinou a não temer o outro para seguir em frente. Por muito tempo, tive medo deles, assim como toda a minha geração. Hoje, compreendo que os filhos e os netos daqueles que fizeram a guerra não podem ser culpados pelos atos dos pais. Ainda bem que mudamos os nossos atos e as fronteiras foram abertas.

E continuou:

— É maravilhoso conhecer e desfrutar o desconhecido. Cada lugar que visito penso sempre se também ocorreu o que me aconteceu. Sei que são gerações fruto de diferentes guerras, mas que, de alguma forma, buscam a semente de paz. Seja aqui na Europa, na Ásia, na África, na América ou em qualquer lugar do mundo.

— O preconceito pode estar enraizado em alguma perna do nosso medo interno. Aquilo que nos ofende, machuca, fere e dói pode ser a angústia latente que se desperta em fúria. Entretanto, é preciso perdoar para seguirmos caminhando. É necessário nos reconhecer nos outros. É isso o que espero dos estrangeiros que aqui decidem viver. Espero que eles respeitem a minha cultura, o meu livre-arbítrio. Batalhamos muito para conquistar o que hoje somos.

— Veja como podemos conversar abertamente. Você acha que posso ter uma conversa dessas todos os dias com qualquer um? Claro que não! Ainda que raros, os momentos de reflexão são fundamentais em nossas vidas. Evoluímos quando compreendemos o outro. Você não acredita?

Anne é tão forte e encantadora que me faz desconhecer qualquer barreira linguística. O bate-papo vai além das nossas diferenças de idade ou cultura. Somos mulheres. Filhos são frutos ausentes. Fazemos o percurso quase inverso ao que se tem por convencional a palavra mulher.

De fato, uma criatura feminina vai muito além das identidades sociais e econômicas pré-concebibas. Ainda que, para alguns costumes, isso seja inadmissível, temos consciência que nossa batalha é diária.

Perdemos o percurso das horas. O restaurante está prestes a fechar. Para acompanhar o café e o chá, engatamos em outras prosas mais leves. Ela me pergunta se gosto de animais, mais necessariamente, cachorro e gato. Respondo que sim.

Anne relata que tem uma cadela chamada Katootje. E pergunta se tenho algum animal em casa. Comento, então, que uma segunda gata, dessa vez toda preta, me adotou em terras italianas. Como estou em Amsterdam, um amigo toma conta do animal.

Habitar em países diversos requer algumas burocracias até para animais. Digo que me encantei misteriosamente pelos gatos, mas ainda não descobri o porquê dessas escolhas inesperadas.

Ela me encara com olhar sarcástico e diz que tem três felinos. Fala que uma delas é muito especial, também é gata de rua, independente. Encontrou-a à noite perambulando pelas ruelas de Amsterdam. Tentou saber quem poderia ser o mentor do felino e não obteve resultados. Acolheu a gata em casa. Ela resolveu ficar e recebeu um nome particular:

— Keetje Tippel.

— Ke… Keetje… O quê?

Não entendi o desconhecido nome. Ela ri e pronuncia em tom brincalhão. Alguém na mesa ao lado ri e faz um comentário tão rápido que sou incapaz de compreender.

— Por favor, o que significa este nome? — perguntei, desconcertada.

— Puta! — responde em curto e bom português.

Fico pensando na relação da gata com a tradução do nome. Quem ouvia os nossos últimos comentários, interveio explicando um pouquinho da reação hilária e a história do nome, popular na Holanda. Começamos todos a rir.

Anne percebeu meu breve embaraço e questionamento oculto, mas continuou brincando com os vizinhos de mesa, dizendo que se sente rejuvenescida a cada dia com boas gargalhadas compartilhadas com o elixir da vida.

Ambas agradecemos pela conversa. Depois de um abraço apertado, me segura pelas mãos e diz:

— Minha cara, é preciso um pouco de libertinage para que a vida tenha prazer. Veja como os gatos são eles mesmos. Inteligentes. Sensíveis. Ágeis. Livres. Que sentido faz a vida se não formos livres de pensamento?

Março de 2016Anne

Ilustração: “Oude vrouw in gebed” (Senhora em oração, tradução livre) conhecido como “Het gebed zonder end” (Oração sem fim, tradução livre). Nicolaes Maes, 1656. O quadro pode ser visto no Rijksmuseum em Amsterdam.

Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras.

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