Arroz de festa

Há várias versões para a origem da expressão arroz de festa. A mais aceita é a inspirada na famosa sobremesa portuguesa, arroz doce, outrora presente em todas as comemorações. Daí, quem era figurinha fácil nas festas ganhava o apelido.

Hoje, o arroz está mais catado, digo, recatado. Não frequenta a mesa de qualquer um. Com o preço nas alturas, a planta da família das Gramíneas mas parece pertencer à família Grimaldi de Mônaco.

Sua origem, no entanto, não é europeia. O grão nasceu no continente asiático e sempre fez parte da cultura da região. No Vietnã, por exemplo, durante enterros há farta distribuição de arroz. Ainda assim, apenas no Brasil é que o preço está pela hora da morte.

O hábito de jogá-lo em recém-casados vem do Japão e ganhou o Ocidente. Hoje, a prática só é cabível em casamento-ostentação. Padrinhos aliás têm preferido presentear o casal com viagem a Paris a gastar com o produto. Afinal, arrozes são como relações tanto podem grudar como azedar, mas na pior das hipóteses, os apaixonados sempre terão Paris.

Embora atualmente seja um artigo de luxo, só perdendo na lista dos desejos para o caviar albino e as trufas brancas frescas, sua origem é humilde.  Chegou a ser sinônimo de algo simples. Quem nunca ouviu alguém dizer: “O prazo para o trabalho tá curto, vou fazer só o feijão com arroz mesmo.”

Aliás, o pretinho gostoso costumava ser companhia inseparável, e sempre mais valorizada.  Nos pratos, a maioria das pessoas o coloca por cima e quando chega visita é ele quem ganha mais água para render. O arroz, não. Ao contrário, com mais líquido empapa e arroz que faz sucesso é o soltinho.

Talvez tenha sido isso. Soltaram tanto o arroz que ele pegou gosto, se destemperou e saiu pelo mundo com outros valores. Parece coisa de quem deixa a terapia antes da alta: o arroz resolveu mostrar às pessoas seu valor custe o que custar.

É preciso registrar: não deve ser fácil passar a vida inteira sendo reconhecido apenas como acompanhante. Sim, existem os risotos, as paellas, mas no frigir dos ovos quando elogiam esses pratos nunca citam o arroz.

Possivelmente tenha se sentido diminuído. Até artistas de rua colaboram para essa emoção se gabando de “escrever seu nome em um grão de arroz” para aumentar a grandiosidade de sua perícia em razão do tamanho “insignificante” do alimento.

Aqui entre nós, nunca entendi essa ideia de escrita em arroz. Mais difícil de engolir ainda é o que motiva alguém a comprar algo assim. Se conseguir chegar em casa com a peça, perde em menos de um dia. É batata!

Pois é, além da batata, também há o macarrão, o aipim, enfim, existem vários acompanhamentos possíveis para as refeições, mas é o arroz que não sai da boca dos brasileiros. Quer dizer, não saia.

A palavra começa com a letra “a” e termina com “z”. Talvez a explicação da paixão esteja aí. No imaginário popular, ao simbolizar as extremidades do alfabeto é meio como se englobasse todas as letras, ou seja, todo mundo. Por isso dizem, vai bem com tudo.

Sim, temos de enaltecê-lo, mas o preço de um item importante da nossa culinária não pode chegar a valores tão indigestos.

A continuar assim, o arroz realmente só frequentará pouquíssimas festas invertendo o sentido da locução arroz de festa, o que pode significar um retrocesso da Língua ou tornar a metáfora uma zorra. E, por falar em retrocesso, experimente escrever zorra de trás para frente. Dá pra engolir?

Martha Gonzalez escreve quinzenalmente para o Clube de Crônicas

Foto: da autora

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *