As cabras e o pastor

Começaram pelo alto do morro. Pelo visto, atravessaram a montanha e o quintal da última casa do vilarejo foi o início da série de ataques a propriedades privadas. Os imponentes e floridos pés de pera e pêssego foram as primeiras vítimas.

Estavam carregados de flores e frutos e seria o primeiro ano de colheita. Devoraram as flores do jardim, desenterrando todos os bulbos das tulipas, e fizeram a farra comendo todas as rosas do túmulo de uma gata.

— Onde já se viu isso? Comer até o bulbo do que está enterrado — disse a dona, furiosa, revirando a terra na esperança de salvar o jardim.

— Esses bichos são endemoniados! — respondeu o moço reforçando a cerca.

— A senhora já viu os olhos desses malditos? Aquilo não é criatura boa não — argumentou o outro consertando o portão quebrado.

— Ó, senhora! A minha bisavó contava que, naqueles cantos do…

A prosa ganhava vida enquanto elas se infiltravam no meio do mato morro abaixo. Na esquina, degustaram todas as plantas enfeitando o contorno da estrada de frente à casa da vizinha. Ela vinha especialmente do exterior para criar um colorido especial para o lugar de tempos medievais.

Devoravam o encontrado pela frente. Pelo visto, estavam enjoadas de mato e queriam provar novos sabores. No vilarejo abaixo, comeram todas as rosas esplêndidas do cercado da Clotilde. Vixe! Mexeram com quem não deviam. Clotilde saiu de casa como uma fera. Estava à procura de uma arma para atirar cabeça por cabeça.

— Eu mato esses demônios! Olha, me vem uma raiva com essas pragas! Cadê aquele maldito? Filho de uma… Esses bichos não podem ficar por aí a solta! — disparava as palavras aos gritos, pronunciadas em dialeto italiano, enquanto tocava os animais. Na verdade, ela não tem coragem de matar nem um mosquito.

Elas se foram fazendo a festa no sentido da destruição dos jardins e pomares dos próximos. Sem direção, seguiam descendo o morro. Ou, talvez, tivessem uma direção. Seria o rio? Estariam com sede. Tinham comido durante a noite e boa parte do dia.

Ainda assim, resolveram parar na casa da Giannini e logo no dia de festa. Giannini estava atolada de serviço doméstico e ainda deveria preparar o almoço, deixar o bolo assando para o café da tarde e dar comida para cachorros, coelhos, galinhas, gatos, gansos, patos e demais criações.

Como também deveria colher as verduras para o jantar e as frutas para a sobremesa, foi quando as pegou no flagra. Ali estavam as cabras. Umas, penduradas nos galhos das macieiras; outras, em pé, encostadas nas pereiras, comendo as folhas e os pequenos frutos. A horta estava invadida por todas de todos os tipos e tamanhos. Simplesmente resolveram tomar posse da propriedade. Parecia a verdadeira “revolução dos bichos”!

Com a colher de madeira em uma mão e o cesto de palha na outra, Giannini gritava e tocava os bichos, em vão. Passou a mão no avental e sentiu a faca usada para colher as verduras.

— Eu mato essas pestes! Saiam daqui! — esbravejava, desesperada colocando as cabras para fora da horta. Os animais corriam de um canto a outro e sequer saiam de dentro do cercado.

— Béeeeehhh! — respondiam os ruminantes, em quase piedade.

A fúria subiu e Giannini sentiu as reações dos seus oitenta e tantos anos no corpo. Era inútil lutar contra aquelas pobres coitadas. A culpa não era delas, mas sim daquele maldito. Pensou alto:

— Ah, aquele amaldiçoado me paga!

Ajeitou o aventou e saiu de casa bufando como um touro e quase soltando fumaça pelo nariz como um dragão. Chegou à casa dele, tocou o sino no portão, chamou várias vezes, bateu na porta e nas janelas…

Rodou pelos fundos e encontrou a bagunça revelada pelos outros animais no cortiço: boi, burro, cachorro, cavalo, galinha, gato pato e tantos outros mais. Tudo e todos espalhados no mesmo espaço. Uma desordem. Olhou para o lado e viu os carneiros separados por um cercadinho. Provavelmente deveriam ser tosados. Restava saber como poderiam vender a lã de animais tão sujos e maltratados.

Sentiu pena dos bichos. Eles não tinham culpa de nada. Estava certa de fazer uma denúncia, mas, antes, deveria se entender com ele.

Alguém gritou de uma janela vizinha:

— Vá lá no bar da Osteria para encontrar aquele pinguço.

— Me veem os nervos só de pensar — respondeu Giannini.

Agradeceu e seguiu pelo caminho. Quando abriu as portas do recinto, lá estava ele, esparramado na cadeira, com os botões da camisa quase saltitando do tecido repuxado pela enorme barriga. Parecia um gigante barbudo e sujo. Bebia o vinho como água, com o líquido na cor de sangue escorrendo pelo canto da boca. Estava feliz e batia com a taça na mesa comemorando alguma coisa.

— Seu maldito! Você é pastor ou não? Porque seus bichos estão lá no meu quintal. Como o senhor pode deixar o pastoril para encher a pança de vinho? — disparava Giannini furiosa.

— Madonna Santa! Deixe-me em paz! Hoje é Ferragosto. A santa tem compaixão e deu folga para o pastor. Por que estás aqui enquanto deveria seguir a procissão? Se a senhora quiser, peça ajuda para ela. As cabras são meu ganha-pão e hoje estão livres para fazer o que quiserem. Pedi permissão para a santa — afrontou-a, tropeçando nos verbos.

Giannini estava sem ação. Como era feriado, e o serviço público estava fechado, a denúncia teria de ser adiada, pelo menos até o dia seguinte. Não haveria mais o flagrante. Resignada, deu meia volta e, retornando ao seu pomar devastado, pensava para consigo mesma: de alguma forma, este ubriaco está sempre em festa com os santos de compaixão para a impunidade.

Agosto de 2017

Foto da autora

Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras.

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