Atitude H

A Comissão de Educação do Senado estuda possíveis novas mudanças ortográficas no Português. Um exemplo é o uso da letra Z nas sílabas com som za, ze, zi, zo e zu.

Assim, na frase (“fraze”) anterior, duas palavras seriam modificadas: “exemplo” e “uso”. Há sugestões de mais estranheza, ainda: eliminar vogais e consoantes não pronunciadas, como o U em“querer” e o H  de “homem”. Ou seja: qerer e omem.

Não conheço detalhes, tampouco argumentos da proposição. Costumo receber com simpatia mudanças que visem facilitar o idioma, sem empobrecê-lo, é claro! A língua é viva. Não pode ficar aprisionada ad infinitum.

Mas, nessa proposta, há — do verbo haver (será que ficaria “á”?) — uma particularidade que não tirei de letra: deixar de escrever o H onde não é pronunciado.

Explico:

As demais letras têm vida própria. Desde que “Ivo viu a uva” até a vaia entoada para a Seleção depois do 7 a 1, a letra U, por exemplo, tem voz. O fato de, eventualmente,não ser pronunciada, como em “guerreiro”, não diminui sua força. O mesmo acontece com outros registros gráficos objetos da proposta.

Mas a situação da H é diferente.

Na festa da nossa língua, é o convidado que entra mudo e sai calado. Vale dizer, sem constituir um fonema. E, mesmo quando acompanha o C, o L ou o N — como em “champagne”, “mulher” e “ninho” —, a H, reparem bem, é apenas um ator-escada. Quem brilha é o ator principal, no caso, a letra anterior.

Esse silêncio também ocorre quando aparece nos nomes das pessoas.  Embora não saiba o alcance da proposta, liminarmente, advogo em causa própria. Me chamo Martha e, tal qual a Gabriela de Jorge Amado, eu nasci assim, eu cresci assim: Martha com H. Pelo menos na minha terra, quero respeito.

Filha de espanhol, lembro-me do estranhamento quando fui buscar o passaporte europeu e deparei com “Marta”. Depois de rodar as castanholas (Ou bater na baiana? Essa dupla nacionalidade me confunde um pouco.), e pedir a retificação, fui informada que o governo español  padronizou os nomes. Surreal saber que, na terra de Dalí, não há mais Marthas, só Martas. Hay gobierno? Soy contra. Ahora, entiendo.

Quanto mais penso no assunto, mais acredito que o silêncio não é um defeito a ser corrigido.  E essa Comissão de senadores que não me venha argumentar que estou fazendo muito barulho por nada. Vejamos:

O H não pronunciado é tão delicado que parece desnecessário. Mas é aí que reside sua beleza. Essa falta de propósito o faz maior. Silencioso, sem função, o H não é luxo é sensação.

Acompanha as outras letras, apenas por gentileza, só por ser parte do mesmo alfabeto. Como deveríamos agir uns com os outros: ser gentil só por ser parte da mesma humanidade.

Hoje, as atitudes, os gestos, parecem tão estudados em livros de autoajuda ou cursos-relâmpago que ser gentil é assunto de técnica a ser abordada, no fim do capítulo 3.

Multiplicam-se as publicações aconselhando atitudes do tipo “Elogie três pessoas ao dia ou sorria para o colega de trabalho.” Arre! Gentileza ensaiada e programada, para quê? Uma promoção ou um lugar no céu? Se já não dou conta dos politicamente corretos, Deus me livre dos politicamente gentis!

Assim, é necessário deixarmos graficamente registrado que nem todas as atitudes, nem todos os gestos, devem ter uma utilidade prática, uma função, um toma lá dá cá. É preciso fomentar a delicadeza pela delicadeza para crescermos como seres humanos. Humanos com H, claro!

Seria ótimo se todos, gerações X, Y ou Z, e o que mais vier, adotássemos uma “Atitude H”.

Não me refiro a dar bom dia ao zelador ou comportamentos do gênero. Isso é questão de educação. Deve ficar claro, ainda, que a Atitude H não se confunde com religião ou caridade. Também não se trata das pequenas gentilezas que fazemos— ou pior:deixamos de fazer — com os mais próximos, como um presente sem data marcada ou um telefonema apenas para um alô.

A Atitude H é mais sutil. É ser gentil sem fazer barulho. Quanto mais inaudível, mais importante. O destinatário não deve nem perceber. Os exemplos ajudam a entender a proposta.

É Atitude H deitar-se devagarinho quando o companheiro dorme, para não incomodá-lo; secar a pia do avião para o próximo passageiro; sinalizar um bueiro aberto; reencadernar o livro, mesmo não tendo sido você quem o desfolhou, antes de devolvê-lo à biblioteca; retirar a casca de banana da calçada; não largar seu carrinho de compras sozinho no elevador; deixar um livro do autor favorito da mãe de uma amiga que você sabe doente na portaria do prédio no qual ela mora; abandonar o jornal lido no banco do ônibus para a informação circular; conseguir um emprego para um amigo sem ele ter ideia do seu esforço —e, claro!, brindar com ele a contratação.  Hurruuuu! Isso é muito Atitude  H.

Nem sempre é fácil. Ou porque não estamos ligados no outro como deveríamos ou porque somos devorados por nossas necessidades. No entanto, atitudes assim alegram a alma de todos os envolvidos. Assumo que, mesmo conhecendo essa sensação,também deixo, muitas vezes, escapar oportunidades de ser gentil, me perdendo na correria do dia a dia.

Por isso, é importante manter o H na nossa ortografia. Serve para nos lembrar de que nossas ações não precisam objetivar um retorno, um ganho.E que, com pequenas atitudes silenciosas, podemos melhorar o dia de outro ser humano. Simples assim.

A mãe natureza dá o exemplo. Quem nunca admirou um arco-íris? De útil, nos basta o calor do Sol e a água da chuva. Mas que o mundo fica mais bonito quando apreciamos aquele faixo de luz é inegável. Pois bem: o arco-íris é só o criador (entenda você como um deus ou a natureza) tendo uma Atitude H.

“Ora, ora, ora, a que horas vais acordar desse sonho?” —você pode me perguntar. É verdade. Se não conseguimos que se respeitem simples sinais de trânsito, tudo isso parece uma fantasia, uma pintura naif da realidade.

No entanto, acredito que não decidimos nosso modo de viver apenas nos grandes acontecimentos, nos rituais sociais, nas festas com emoções programadas.

A cada respiração traçamos a rota do nosso caminho. E cabe a nós mesmos escolher, no dia a dia,se, ao escrever a nossa vida, vamos contar uma estória ou viver uma história.

(Primavera, 2014)

Martha Gonzalez escreve, quinzenalmente, aos domingos

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