Cadê as árvores?

“Eu nunca matei passarinho. Meus amigos matavam, mas eu não gostava.” A frase é de Dominguinhos, referindo-se às “brincadeiras” de criança no sertão pernambucano. (Essa é uma das histórias contadas pelo genial instrumentista, cantor e compositor, falecido em julho de 2013, no documentário sobre a vida dele.)

Pássaros não existem para estar na mira de estilingues, engaiolados ou com asas cortadas dentro de apartamentos. A liberdade é o único bem que possuem. Adoro acordar e observá-los pulando de galho em galho, fazendo a maior algazarra na árvore em frente, cujos galhos alcançam o segundo andar do prédio onde moro, em Jardim da Penha, em Vitória.

Graças à tela de proteção, as aves ficam a salvo dos meus gatos, que, curiosos, assistem ao espetáculo matinal. As árvores são a casa dos passarinhos. Quando vejo galhos caídos, cortados negligentemente por funcionários da Prefeitura — alegam fazer a poda —, sinto meu peito apertar.

“Para onde vão os moradores quando o lar deles é destruído?” — é a pergunta que me faço. Você já se imaginou chegando a casa após um dia inteiro de trabalho (sim, as aves também ficam ocupadas à procura de materiais para construção de ninhos, buscando alimento para os filhotes, dentre outras tarefas diárias) e encontrá-la destruída? E o pior: sem a sua família?

Pois é isso o que acontece quando as árvores são mutiladas. Junto com os galhos, são derrubados ninhos, ovinhos, filhotes… Perdidos, sem rumo, os bichinhos voam para longe, à procura de outro lar. Na falta de árvores, buscam um poste “para chamar de seu”.

Atrás de explicações para a poda exagerada dos galhos, tenho ouvido as mais variadas respostas, que não me convencem: “As árvores atraem morcegos.” “As folhas secas sujam as calçadas.” “O corte é necessário para a árvore se renovar.” “Os galhos facilitam o acesso de bandidos aos apartamentos.”

Ora! Que inversão de valores é essa? Então, vamos cortar a perna porque está doendo? Assaltos e furtos, assim como outros tipos de violência, devem ser prevenidos com mais policiamento, trabalho investigativo e, principalmente, com educação e programas sociais. Nunca com destruição do meio ambiente!

Uma amiga, moradora antiga do bairro, também fica inconformada com a falta de critérios para o corte das árvores. E ela é daquelas que demonstram sua indignação com todas as armas de que dispõe. Já tentou convencer os técnicos da Prefeitura a interromper a poda, discutiu com vizinhos e até chamou a imprensa!

Ela afirma que, com muito esforço, conseguiu impedir o corte de uma bela árvore, plantada por seu pai, na época em que Jardim da Penha fazia jus ao nome. Hoje, o verde é cada vez menos presente nas ruas dominadas por prédios e automóveis.

Circulam pela Internet fotos de uma rua em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, considerada a mais bonita do mundo. Do alto, o que se vê é um imenso tapete verde. Por baixo, um túnel formado pelas copas das árvores.

É a Rua Gonçalo de Carvalho, tombada como Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental do Município, em 2006. Resultado da luta dos moradores. Eles conseguiram impedir a construção de um estacionamento no local, o que levaria à retirada de algumas árvores. O caso foi parar na Justiça e a construtora acabou desistindo do projeto

Belém, no Pará, com suas mangueiras centenárias, também tem motivos para se orgulhar. Alguns bairros do Rio, São Paulo e Belo Horizonte oferecem um alívio contra o Sol escaldante graças às imensas árvores preservadas.

E aqui? Quantas vezes somos obrigados a andar por quarteirões seguidos sem encontrar uma sombra? Quem não se lembra das castanheiras da Praia de Camburi? Arrancadas impiedosamente em nome de obras de “melhoria” do calçadão. Ruas sem árvores, pássaros sem casa, humanos sem sombra… Já está na hora de reverter esse quadro. Para o bem dos nossos olhos e da nossa saúde.

Cristina Fagundes escreve, quinzenalmente, aos domingos.

Crônica publicada originalmente em 3/9/2015

Foto: George Barcelos – Caminho dos Ipês (Parque Municipal Pedra da Cebola, em Vitória)

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