Cecchina, a Guru

Enquanto muitos colegas viajam para Índia, Nepal ou qualquer outro canto, em busca de um guru, o meu… Quero dizer: a minha veio ao meu encontro. Quando a vi pela primeira vez, levei um susto. Fiquei ressabiada. Ela estava parada na porta me olhando atentamente. Mas, só fui percebê-la depois.

Tinha ido conhecer o Norte da Itália com o meu parceiro. Na época, estava indecisa se ficava na Europa ou se voltava para o Brasil. Aqui, a possibilidade de se reinventar e lá, família, amigos, trabalhos, vida cotidiana…

Em meio a lágrimas, ouvi uma voz dizer:

— Fica.

No impulso, dentro do carro em um estacionamento de supermercado, falei para o companheiro:

— Se eu encontrar um trabalho, ficarei por aqui.

— Você ficou louca? Como assim, pirou? Você nem fala italiano…

Fomos ao restaurante no qual tínhamos jantado na noite anterior. O namorado me serviu de intérprete para relatar minha inexperiência acompanhada da vontade de aprender algo novo.

Dois dias depois, a dona do restaurante ligou dizendo que a moça que a ajudava nas tarefas foi trabalhar em outro lugar. Dali pensei: “Sim. O universo conspira a favor dos nossos sonhos.”

O salário seria suficiente para viver naquele lugar e, em troca, aprenderia italiano, além de ter outras experiências de vida. Trabalho confirmado e um deus nos acuda daqui e de lá. Preocupação geral:

— A Edsandra enlouqueceu.

— Onde já se viu isso? Morar sozinha no alto de uma montanha.

— No inverno não tem ninguém por lá. É muito frio.

— E se ela adoecer com as temperaturas negativas?

— Quer virar uma ermitã?

— O que deu em você?

No meio de todos esses questionamentos, chegou Cecchina.

Depois daquele susto inicial, cheguei a vê-la algumas vezes circulando pelo quintal. Até que, um dia, preocupada com a chegada de uma forte tempestade, me perguntava onde ela poderia estar. Voltei do serviço e ela bateu no vidro da janela. Pensei: “O que eu vou fazer agora?”

No ensejo, abri a porta e ela entrou. Desconfiada, percorreu cada canto da casa. Eu não sabia o que oferecer para o jantar. Ela aceitou o que preparei. Naquela noite, ficou claro que cada uma de nós deveria respeitar os espaços terrenos da outra. Aceitei e ela foi ficando.

Arisca e, por vezes, diga-se selvagem. Ela estava na minha casa e sequer eu podia ter contato com a mesma. Até que, passados dois meses, ela se aproximou quietinha e me abraçou. Chorei. Chorei de felicidade. Como era bom receber um amor tão puro!

A partir dali nos tornamos companheiras enlaçadas pela harmonia. Amamos o silêncio. Em comum, a solidão. Com Cecchina, desliguei do computador e me conectei ao mundo. Ela me ensinou a importância de observar a si mesmo, ao outro e ao ambiente onde se está. Antes de sair à porta, escute primeiro o que o universo quer lhe dizer.

Por mais de um ano, vivi dias de oração, de comunhão comigo mesma. Esta guru me permitiu ser eu mesma. Momentos de luta interna aliviados com as canções do vento com as árvores. Dragões amansados com o pôr do Sol. Dores anestesiadas com o cair da neve. Prazer em cada amanhecer em um constante respeito ao ciclo da vida.

Cecchina, minha guru, é uma gata. Era moradora das ruas da vila onde fui viver. Cega do olho esquerdo e, por fim, sem nenhum dente, viveu mais de 24 anos. Foi vista pela primeira vez em 1989.

Antes, não se deixava tocar, mas estava sempre por perto daqueles que habitavam a vila. Depois daquele abraço, realizou a vontade de muitos ao deixar que a acariciassem. O ser intocável e distante, tornou-se terreno e presente.

Cecchina se foi em 19 abril de 2014. Deixou os ensinamentos de uma professora. Uma guerreira nesta selva de animais ferozes. Uma rainha detentora da glória na arte de viver.

Sim, o seu guru pode estar aí ao seu lado olhando para você. Pode ser qualquer animal, inclusive o ser humano.

(Agosto de 2015)

Publicada originalmente em 15 de setembro de 2015

Foto: Edsandra Carneiro

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