Celebrar o quê?

O próximo dia 26 de novembro é Dia de Ação de Graças. Há quase 34 anos escuto minha mãe dizer, sempre orgulhosa e feliz, que a filha dela nasceu na data em que se celebra os bons acontecimentos do ano. Então, neste ano, quero celebrar a garra do ser humano para o bem. Gostaria de ler ou ver nos jornais, revistas e Internet que discursos e iniciativas de mulheres engajadas na luta pela igualdade de gênero estão em prática no mundo inteiro.

Diariamente, escuto e presencio opressão masculina insistindo para estabelecer um modelo de governalibilidade baseado em palavras de ordem, no intuito de se impor medidas e restrições para uma sociedade cada vez mais sexista e desumana. Não sou ativista feminina, mas defendo estabelecermos nossas vidas enquanto mulheres (cidadãos em geral), promovendo nossos direitos de igualdade e respeito.

Aliás, amor e respeito ao próximo deveriam ser os princípios básicos de qualquer relação, independentemente de raça, gênero ou condição social. A cada ano, percebo que não há como estabelecermos um lugar certo de onde somos ou viemos. Assim, como disse Maya Angelou: “Nós somos a soma de tudo o que já vimos, ouvimos, comemos, cheiramos, dissemos, equecemos… Tudo influencia cada um de nós”.

Sim, eu sou a soma das minhas experiências de vida. E, da primeira vez que ouvi a expressão “cidadão do mundo”, fiquei alguns minutos pensando como alguém poderia me considerar como tal. Depois, compreendi perfeitamente e passei a me definir como cidadã do mundo. Porque, eu sou Brasil, mas também sou Itália, sou Holanda, sou Bélgica, sou Hungria, sou Eslovênia, sou Alemanha e sou tantos outros pedaços de terras por quais eu passei assim como tantas outras histórias em diferentes culturas das quais convivi e dividi.

Eu sou a menina dos olhos grandes marcados de preto, dos cabelos escuros longos como cordas de violão. Eu sou aquela garota que deixou um lugar fixo para se aventurar pelo mundo sem nem mesmo saber onde pisar. Também sou a moça que, na travessia do mar agitado, perdeu as duas irmãs quando o barco virou. Sou a jovem que percorreu continentes a pé, com alguns trocados e documentos dentro do sutiã, e que agora recomeça a vida em um lugar desconhecido.

Eu sou a família que perdeu o filho assassinado no País bonito pela natureza. Eu também sou o homem sujo e sem dentes, porque, em algum momento, mastigou pedras da vida que congestionaram o estômago e não há cirurgia que retire os dejetos humanos contaminados e impregnados naquele corpo. Da mesma forma que sou a mãe ou a mulher, de pele marcada e esculpida pela brisa do tempo, sou o assassino de um irmão, o motorista do caminhão ou o homem que perdeu a mulher e o filho.

Sou a prostituta da esquina; sou o presidente; sou a secretária; sou a faxineira; sou a mestre; sou a madre de caridade; mas também sou o estuprador, o assassino no Quênia, o terrorista na França, o guerrilheiro na Síria, a tragédia ambiental… Eu sou você.

Ainda assim, também sou uma mulher em busca da harmonia com o próprio espírito para seguir o caminho a si mesma. Por que, então, você vai me dizer que a minha cor, a minha crença, o meu gênero ou a minha opção sexual serão alguns dos motivos para sacrificar vidas humanas e destruir a nossa própria identidade?

Neste Dia de Ação de Graças, ainda que eu não siga nenhum tipo de religiosidade, gostaria de celebrar a humanidade, de agradecer pelo ser humano, na esperança de que na condição de humanos possamos ter coragem de sonhar, falhar e perdoar. E, assim, celebrarmos a vida.

Novembro de 2015
Foto: Edsandra Carneiro
Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras

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