Charlotte

Olhos brilhantes da cor do céu. Bochechas rosadas levemente tocadas pelos fios dourados dos sedosos e ondulados cabelos. Riso solto com a portinha do labirinto da sabedoria de quem conhece muito bem a Terra do Nunca. Falante inteligente como a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Ela é energética, viva e alegre! Numa euforia contagiante, toma minhas mãos e me leva para conhecer o mundo fantástico, invísivel aos olhos dos seres adultos.

— Corre! Venha! Venha ver! Olha só! Ali, oh! Veja aqui! Olhe por esta frestinha… Viu? São bebês de morcego!

Ficamos ali dependuradas no corrimão da janela observando os filhotes de morcego por detrás da persiana. Para facilitar a olhada, Charlotte pegou uma cadeira e meteu-se de joelhos enquanto espiava de fininho os bichinhos.

Estava encantada. Mostrou a morcegada a todos presentes na casa. Dali, partimos para as lagartixas e passarinhos. Corremos pelo jardim. Depois, fomos todos alimentar os pôneis: Birillo, Fúria, Moreta e Vittoria.

Daqui das montanhas, apreciamos a chegada do temporal. Pudemos ver o passear das nuvens, hesitamos com o iluminar dos raios, trememos com os trovões e nos encantamos com o aproximar da intensa chuva ainda no horizonte. Reunimos todos à mesa, à luz de vela — a energia elétrica tinha ido embora com uma descarga do céu.

Uma manifestação da natureza pode ser um presente para crianças, ou uma aventura em formato de férias escolares. Melhor ainda quando as conversas ou causos são regados de boas gargalhadas, deliciosa comida e revigorantes sucos. É um momento íntimo e renovador.

Em pouco tempo, o Sol reaparece e a vida segue o rumo cotidiano.

— Sabe? Eu gosto de animais. Eles são tão fofos! Podemos ser únicos uns aos outros — dobra a bainha do short e completa —, se domesticados, né?

— E quais você gosta de ter por perto?

— Todos.

— Todos? Como assim?

E sou surpreendida pela resposta sentenciada ao mundo adulto.

— Bom. É, eu sei, devo escolher… — gira em torno de si.

— Escolher? Por quê? — pergunto, querendo ser despretensiosa.

— Porque a gente precisa fazer escolhas para tudo.

— Ah é?

— É. Eu sei que não se pode ter tudo, né? — abaixa a cabeça encarando o próprio umbigo enquanto a voz murcha de mansinho.

— Hum?!

— Então, devo escolher. Não é assim que a mamãe e o papai dizem?

— …

Faço uma pausa buscando uma resposta convicente para aquele ser que me girava em torno, enquanto eu retirava as louças da máquina de lavar e as guardava no armário. Ainda devia preparar o jantar e estava envolta e perdida nos pensamentos de Charlotte. Parei com a tarefa e me encostei na pia enquanto ela andava de um lado para o outro na cozinha, tocando nos pequenos objetos que encontrava pela frente na esperança de me ofertar ajuda.

— Se você tem de escolher, quais são os seus animais de estimação?

— Ah! Deixe-me ver — inicia contar pelos dedos — Cavalo, elefante, gato, cachorro e coelho.

— Você disse elefante?

— Sim, elefante. Eles são enormes e superfortes. São fofinhos também. São engraçados…

— Você já viu um elefante?

— Sim, no zoológico. E sou capaz de perceber que eles são poderosos. Eu gosto deles.

Sai da cadeira em que tinha acabado de se sentar e toma a gata Nerina pelos braços como se fosse um bebê.

— Posso dar comida a gatinha?

— Sim, claro!

Nerina é a simpática, amável e carinhosa gata preta (parece mais uma pantera de olhos verdes) que nos adotou há quase um ano. Apareceu perto dos cavalos, chegou de mansinho no quintal e agora é de casa.

— E onde o elefante iria viver?

— Ainda não pensei neste detalhe, mas, de certo, encontraria um lugar para ele morar. Sempre há lugar para todos os animais…

Charlotte se ajoelha ao chão para colocar a gata perto da vasilha de comida. Em seguida, busca a ração úmida e com todo cuidado enche o prato. Carinhosamente, indica a Nerina que a refeição está servida.

— A gente se conhece há tanto tempo — gira a cabeça, lança o olhar para o alto e indica o tempo pelo contar dos dedos — Nossa, é a metade da minha vida!

— Sim, já são quatro anos!

— Uau! Estou crescendo! “Cool”! Fantástico!

Em um piscar de olhos, dispara a falar sobre outros temas. Em seguida, busca o “telefone inteligente” da mãe e me mostra uma infinidade de fotos, vídeos e músicas compiladas. Que habilidade! Em poucos minutos, passeamos da Holanda para Alemanha, Áustria e chegamos na Itália. Tudo contado em passeios e aventuras vividas em família nas recentes semanas de férias escolares.

Com Charlotte, temos a impressão de que o mundo é muito menor do que nós somos. A cada ano, sai de férias com os pais em um tipo diverso de aventura. A fantasia a leva para lugares mágicos enquanto viaja com a criatividade aguçada pelo despertar das flores que encontra pelos caminhos.

Ainda que “pequena”, esforça-se para compreender o idioma, os hábitos e a cultura dos lugares por onde passa. Carrega todo o universo por entre os olhos, orelhas e boca.

Os comentários, perguntas, sugestões e ideias me fazem lembrar do Pequeno Príncipe no asteróide B612. Ela é grande e nos faz perceber que as estrelas são o que há de belo lá fora.

Antes de seguir viagem com os pais e o irmão — e fazer várias saudações verbais e gestuais enquanto observamos o carro seguir pela estrada —, Charlotte me dá um abraço apertado e diz:

— Se encontrar um cavalo selvagem, não tenha medo dele. Todos os cavalos são bons. Sopre com carinho no nariz dele. Ele vai gostar de você e será seu amigo de verdade.

Sabe? Quando a gente cresce, na esperança de sermos adultos “maravilhosos”, esquecemos a criança prodígio que há em nós. Deveríamos ouvir as histórias das “outras” crianças. Talvez, se permitimos a presença das outras vidas em todos os outros planetas — invísiveis aos nossos olhos de adultos —, lembraremos que não importa se crescemos: o que há de essencial ainda está em nós.

Muitas vezes, dependemos de outra criança para refletirmos os nossos medos, os nossos desejos e a nossa própria imagem.

Julho de 2016

Ilustração: https://www.polyvore.com/alone_on_asteroid_612/set?id=15063872

Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras

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