Cio da Terra e o alimento nosso de cada dia

Dia 19 de abril de 2015, o Cio da Terra abriu pela primeira vez num domingo — era também a última vez, pois estava encerrando atividades após mais de 20 anos de funcionamento. O restaurante estava lotado. Nos rostos, não se viam sinais de tristeza, e sim de satisfação e agradecimento.

E são esses sentimentos que me movem a escrever esta crônica: alegria e gratidão por ter podido fazer parte dessa história. Não sei precisar ao certo quando o Cio da Terra entrou na minha vida, mas posso atestar que provocou uma revolução não apenas na forma de me alimentar, mas de viver.

Soube por acaso, por meio de um colega de trabalho, da existência de um restaurante vegetariano funcionando no local de um antigo quilão, em Jardim da Penha, Vitória. Eu me mudara para a capital capixaba havia pouco tempo. No Rio, no final dos anos 80 e início dos 90, sempre procurava os chamados “naturais”, denominação comum na época para estabelecimentos que serviam arroz integral e nenhum tipo de carne.

No Cio, encontrei um ambiente rústico e aconchegante. Como eu deixava o serviço às duas da tarde, telefonava antes para pedir que guardassem uma refeição. Era gentilmente atendida pela Tetê. Da cozinha, vinham os deliciosos quitutes e abraços calorosos da Gê, que, após alguns anos, trilhou caminho próprio e hoje tem uma disputada barraca em duas feiras orgânicas de Vitória.

No início, confesso, estranhava um pouco. Sentia falta da batata frita, do frango grelhado, do canelone de ricota com molho branco e de outros pratos que faziam parte do meu cardápio. Com o tempo, aconteceu o contrário: meu organismo passou a “pedir” o alimento do Cio da Terra.

Aqui, abro um parêntese: naquela época, pesava dez quilos a mais. Na rua, chegavam a me perguntar se estava grávida. Tentei várias formas de dieta. Frequentei reuniões do Vigilantes do Peso, consultórios de nutricionistas e endocrinologistas. Tinha tabela de calorias, cardápio especial…

Nada adiantava. Optando apenas pelo Cio, fui emagrecendo sem perceber. Quando me dei conta, a balança registrava o mesmo peso de quando eu tinha 18 anos. Fecha parêntese.

Tive sorte de ter conhecido o Geraldo, fundador do Cio da Terra, falecido em 2004. Era uma honra tê-lo sentado à mesa comigo. Ele falava sobre combinação de alimentos, fermentação, flora intestinal… Eu o ouvia, fascinada. Achava incrível a história da sua mulher, Angélica, que trocou uma carreira bem sucedida de decoradora em São Paulo por uma vida 100% integrada à Natureza, no Caparaó.

O Cio da Terra nunca foi desses restaurantes aonde se vai só para comer e pronto. Era um local para reencontrar amigos e fazer novas amizades. E eu fiz muitas por lá. A própria disposição do mobiliário facilitava o convívio. Dependendo de quem sentava à mesa, o papo podia girar em torno de jornalismo, literatura, política, arquitetura, paisagismo, cinema, budismo, meditação e viagens: de retiro na Índia a roteiro cultural na Itália, do Festival Folclórico de Parintins aos Cânions de Cambará do Sul.

Algumas histórias podiam ser tristes, mas acabavam revelando exemplos de superação. Como a de quem surpreendeu os médicos com a rápida recuperação de um câncer. “Sei que foi a alimentação diária no Cio da Terra que me fortaleceu” — disse uma querida amiga.

Mudar os hábitos alimentares não é tarefa fácil. “A coisa mais difícil foi cortar o açúcar” — lembra Jovana, outra frequentadora assídua. Ainda não cheguei a esse ponto. Confesso que sinto necessidade do sabor doce em minha boca. Mas tantos outros não fazem mais parte da minha vida. Meu cardápio atual não inclui produtos derivados de animais.

O Cio da Terra foi, e continuará sendo, parte de um longo aprendizado. Uma jornada ainda não concluída. Apenas um ciclo foi encerrado. Cada um pode encontrar o seu próprio caminho para uma alimentação ética e saudável.

(Maio de 2015)

Foto: Cristina Fagundes

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