Clamídio, o Ouvidor

(Por Eduardo Selga)

Quando o improvisado colega, à medida que me ajudava a carregar alguns trastes para dentro da nova casa, disse o nome de um de meus futuros vizinhos, achei engraçado, pensei ter ouvido mal ou os fonemas tivessem sido mastigados na pronúncia.

Mas não: Clamídio se chamava realmente Clamídio. Era nome que se desse a um filho? —perguntei ao súbito colega que me apresentava, por meio de pequenos causos, o bairro Itararé, periférico, situado na porção insular de Vitória, onde eu passaria a morar e que possui personagens ímpares. Na verdade, eles existem em todo aglomerado urbano, a diferença é que em Itararé a concentração por metro quadrado é bem elevada. Parecem criaturas saídas dalgum conto, e por isso gosto tanto dele.

Mais para dentro do que para fora, ri da estranheza incrustada no nome, porém não creio que meu interlocutor tenha captado o real motivo: é que existe uma doença venérea cujo nome é clamídia. Mas esta não será objeto destas palavras, embora elas se relacionem a luxúria.

Além do prenome extravagante, havia mais informações sobre o sujeito. Deu para perceber pelo entusiasmo vocabular do tal colega. Os anos de experiência não me deixavam enganar: era aquele tipo de sujeito, dado à maliciosa arte da fofoca, ele estava a ponto de fazer-se panfleto suburbano, rádio-poste ou coisa semelhante.

Esperava alguma indicação sólida de minha parte de modo a poder seguir em sua costura. Entretanto, adernei à esquerda e à direita, a tergiversação necessária à mudança de assunto. Eu lá estava para ouvir mexericos da Candinha? Passaram-se alguns dias, acabou chegando até a mim o que era a outra informação que estava a ponto de fazer da língua dele trampolim para ganhar a liberdade do ouvido alheio.

A impotência sexual é assombração com a qual nenhum homem quer conviver (já não bastam todas as outras?), mas se o convívio com ela resultar inevitável não se fará alarde disso. Na medida do possível, será uma relação cercada pelo silêncio, como o guerreiro que, gravemente ferido em campo de batalha, não se confessa derrotado porque aí, sim, estaria irremediavelmente morto.

Mas a relação de Clamídio com essa tragédia masculina era outra. Mesmo havendo várias residências entre a minha e a dele, por causa da insônia rapidamente percebi que em determinadas madrugadas Clamídio subia em sua laje, como os gatos andarilhos gostam de um telhado. Mas, ao contrário dos felinos, pecava pela ausência de sutileza: sendo as casas coladas umas às outras, ele se aproveitava dessa característica arquitetônica de algumas periferias e, aparentemente acreditando não haver nenhuma testemunha ocular da história, encostava os ouvidos nas paredes das duas casas vizinhas, à esquerda e à direita, mais altas que a laje da casa dele. Auscultava com a atenção dum médico que ouve o coração paciente. Parecia deliciar-se.

Logo depois, sentava-se numa cadeira de praia e fitava o céu às vezes enluarado com olhos de saudade de um tesão perdido e de um tempo que, seguramente, não voltaria jamais. Por causa de alguma cardiopatia, era-lhe impossível fazer uso daquele comprimido azul que de um tempo para cá tem feito a felicidade dos caídos em combate. Por uma questão de solidariedade de gênero, eu lamentava.

Se ele fosse mesmo um gato, não apenas a metáfora de um, após ouvir o que lhe confessavam as paredes talvez se lambesse todo e uivasse para a lua (ops! Isso é coisa de cachorro), ou miasse aqueles gemidos libertinos que os gatos aprenderam conosco, séculos e séculos de convivência.

Não seria ainda mais torturante para ele ouvir o que na prática já lhe era impossível executar? —ao observá-lo, eu me perguntava, furtivo, semioculto pela cortina e pela noite. Afinal, equivalia a reconhecer uma derrota que, se não se dava todas as noites, fazia-se presente ao menos meia dúzia de vezes no universo de um mês.

Se acaso perseverava no hábito é porque alguma delícia existia no voyeurismo auditivo. Pelo tanto de estrelas que enchiam seus olhos, possivelmente ao encostar os ouvidos nas paredes ele se sentisse envolvido por algum acalanto, e nele viajasse. Não me refiro a recordações, apenas: é como se os gemidos lhe funcionassem como melodia, e dela necessitasse.

Nunca me aproximei dele para questioná-lo sobre a mania de ouvir indiscrições alheias, mesmo porque não sei se valeria a pena o constrangimento pelo qual ele talvez passasse, até pela falta de intimidade suficiente.

Mas sempre quis saber dele se realmente fazia fé de que não estava sendo visto por senhor ninguém. Nunca acreditei nisso. Para mim, ele confiava no silêncio da vizinhança, na cumplicidade que vez por outra, à boca miúda, deixava vazar alguma coisa, mas que à luz do sol certamente negaria tudo se houvesse maiores questionamentos ou se as partes fossem postas frente a frente.

“Clamídio não faz essas saliências”; “é essa gente pobre que fala demais”; “ele já não chega mais junto à Dona Maria dele, mas daí a dizer que… não, isso só pode ser fofoca”: frases assim eu ainda ouço sempre nas ruas e becos de Itararé próximos à minha casa, e tanto que dia desses finalmente a “ficha caiu” e descobri o motivo não só do prazer dele como também do silêncio pactuado: Clamídio é um contador de causos nato, de modo que a partir da “matéria-prima” colhida através das paredes ele inventava e inventa narrativas saborosas abarcando as situações ouvidas, sempre preservando as pessoas por meio da estratégia de substituir os nomes. No entanto, todos sabiam de quem se falava. E ninguém queria nem quer perder suas histórias.

Esse modo de lidar com a própria impotência sexual eu nunca tinha visto, confesso: o prazer deteriorado foi substituído por outro tipo de prazer, o narrativo, tendo como personagens os colegas sexualmente eficazes daquela rua de Itararé, cujo nome me reservo o direito de manter em segredo.

Imagem: Pinterest.com

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