Correr em cores

Primeiro, devo lhe perguntar quando foi a última vez em que você se permitiu divertir? Deixando os problemas trancados em casa, largados dentro do carro ou acorrentados na garupa da bicicleta estacionada na entrada do parque; esquecendo de ser adulto e enturmando em uma multidão diversificada, assim como uma criança brincando na poeira de terra fofa, lambuzada pelo suor escorrendo pelo corpo e rosto, mas inteiramente feliz.

Pois é, na fase adulta, ficamos tão obcecados com nossas tarefas cotidianas, a ponto de esquecermos a criança maravilhosa que existe dentro de nós. Domingo passado, a menina que habita em mim teve seu dia de liberdade. Graças ao convite de colegas, participei da Color Run, um evento realizado globalmente. Uma corrida para contemplarmos alegria, diversão, boas gargalhadas e convívio social.

Nosso grupo — moças com arranjos nas casas dos 30, 40… — tinha um sotaque gostoso do misto de idiomas presentes, com licença para brincar entre os participantes de diferentes pensamentos, idades, medidas e formas. Todos, vestidos com camiseta branca e enfeitados por flores e coloridos por cores, os corredores tiveram acesso a um mundo de fantasia e muita alegria, geralmente encontrados apenas no universo infantil.

O slogan do evento diz: “O 5k mais felizes do planeta”. De fato, o percurso é encorajado por voluntários e música festiva, criando uma energia positiva contagiante aos participantes. Essa animação cresce com a pulverização de tons para cada quilômetro percorrido. Começamos com azul, passamos pelo róseo, fomos cobertos pelo verde, iluminados pelo laranja e pacificados pelo violeta.

Cada um vai no próprio ritmo e maneira. Correr ou caminhar? Tanto faz. Tempo e classificações estão descartados. O negócio é brincar. E se divertir fazendo o bem. Porque os recursos arrecadados são direcionados para algum projeto social, como anunciado pelos organizadores da corrida.

Na verdade, o benefício foi mútuo. Porque correr, dançar e brincar no Sloterpark¹, em Amsterdam, ofertou um momento de felicidade para todos os presentes.

Gargalhar e ser visivelmente distraída pela alegria do próximo é fascinante. Parar no meio da corrida para observar o verde, o lago ou um carrinho de sorvete espremido por corredores; se deliciar na oferta de um copo de iogurte; diminuir o ritmo para a prosa entre mulheres, despertando e libertando as meninas existentes em cada uma delas é ser feliz incondicionalmente, ainda que por um instante.

Para mim, foi como, pela primeira vez, brincar na rua exalando suor de pura adrenalina e suja de poeira, com a direito a grude de pó colorido nas juntas dos braços e outras partes do corpo. E, assim, voltar para casa sem levar bronca de mãe, sendo apenas livre para brincar e viver.

Ao final do trajeto, quando fomos contemplados por um banho de cor, o Color Blast, adentramos numa zona de jardim de infância. Uma energia positiva se tornou tão intensa que a minha mente de adulto se sentiu incomodada e se atreveu a dizer:

— Atenção, oh! Essa sua alegria e disposição não são normais, não. Provavelmente, colocaram alguma substância química na água que você bebeu. Vá embora! Você não tem vergonha? Você precisa concluir aquele trabalho. Cuidado com o joelho! Precisa retirar os parafusos das pernas… E o diagnóstico de fulano, esqueceu?

Mas, se você continuar pulando, gritando, dançando, lançado cores para o alto e se divertindo em uma explosão do ser, pode ter certeza que problemas e quaisquer tipos de dores estarão bem longe. Você vai poder comer batatinha frita no final da corrida e ainda queimar todas as calorias nas horas sequenciais de muita música, alegria e diversão. Você será a criança mais feliz deste planeta, ainda que por um dia ou algumas horas.

Devo dizer que, se pudéssemos correr em corres ao menos um quilômetro por dia, nos sentiríamos mais alegres, confiantes e positivos. O amor acalmaria o medo. Teríamos mais serenidade e discernimento para encontrarmos soluções para nossos problemas e nossas enfermidades poderiam ser reduzidas, ou até exterminadas. Talvez nosso convívio seria mais humano e menos virtual.

Vestir-se de branco e deixar o coração e a mente serem coloridos pode ser um exercício para alegrarmos o mundo e a nós mesmos. Permita-se ser criança. Permita-se alegria. Divirta-se.

¹Sloterpark é um parque situado ao redor do lago Sloter no Novo Oeste de Amsterdam.

 

Maio de 2017

Foto da autora

Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras.

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