DA PÓS-VERDADE AO GROMELÔ

(Por Eduardo Selga) Em tempos de pós-verdade, essa palavra recentemente tatuada na língua da opinião pública para definir um tipo sofisticado de mentira que existe de priscas eras, é preciso tomar todo cuidado do mundo para não embarcarmos em furadíssimas canoas, em miragens construídas pelo discurso.

Ao contrário do que talvez possa parecer, em muitas situações do cotidiano é tarefa das mais difíceis não se deixar iludir. Aliás, é muito mais confortável entregar-se às aparências dos significados do que seguir o conselho de Drummond (“penetra surdamente no reino das palavras”). Não é como, por exemplo, transpor a rua apenas quando temos a gritante certeza de não haver perigo, conforme ensinamentos de nossos pais. A complexidade é maior. Não raro, a ameaça é invisível: nem bem atravessamos a avenida e a mentira nos atropela em cheio com seu disfarce de verdade inofensiva. E novamente precisamos prestar atenção no gauche de Itabira: “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã”.

Vivemos onde? Essa pergunta, em que o advérbio de lugar representa mais que espaço geográfico, pode parecer desconjuntada, mas também isso faz parte do mundo do disfarce, da aparência: quantas vezes arregalamos boca e olhos ante um acontecimento que nos figurava completamente impossível, considerando o bom senso, a civilidade e outros valores tidos como pétreos na convivência social?

O insólito, que por sua natureza se imiscuía apenas eventualmente em nossa vida, tomou conta de todas as extensões do cotidiano, inclusive de sua principal dimensão, a política, e muitas vezes faltam palavras efetivas o bastante para expor essa estranheza. “Pós-verdade” é um desses casos, uma espécie de “não-palavra”, um nome inventado para desdizer, na verdade. Um vocábulo com ares científicos para a conhecida fofoca, mas, diferente dela, uma narrativa cujos elementos (personagem, enredo etc.) estão mais bem amarrados, com poucos fios desencapados. E isso se dá porque ela se constrói alicerçada em mitologias de classe, em preconceitos.

Seria tão diferente assim essa fofoca pós-moderna, a ponto de merecer novo vocábulo para defini-la, ou apenas roupagem elegante vestindo um cadáver antigo, de modo que ele não pareça finado? Desde sempre vivemos num mundo que, mesmo sendo um código em parte intraduzível, se pretende traduzir pelas palavras. No entanto, hoje, paridas de estranhos ventres, há palavras que não significam de fato, são simulacros que agem no sentido de esvaziar sentidos. Vivemos dias ocos.

Considerando que a ficção social fincou suas bandeiras nos corações de hoje, menospreza o factual e o empírico, faz com que em larga medida vivamos irrealidades, temo esse processo avance e passemos de desnecessárias palavras que designam o já designado para, por exemplo, o uso cotidiano do gromelô, uma língua criada na ficção e muito usada no teatro. Caracteriza-se pelo uso de palavras inexistentes, porém pronunciadas com musicalidade similar a determinado idioma. O “significado” se dá pela entonação e pelos gestos, mas a rigor as “palavras” nada significam. Máscaras mútuas: de um lado, o fingimento de dizer algo que faça sentido; de outro, o fingimento de entender. Ou seja, a aplicação da novilíngua de George Orwell em “1984”, ficção cada dia mais concreta.

Passageiros diários de tantas canoas esburacadas, talvez não haja mais porto seguro possível e tenhamos que conviver com uma degradação contínua e crescente da comunicação interpessoal. As palavras, elas estão se multiplicando em quantidade e em lacuna. Bem pós-moderna essa contradição. E mais uma vez Drummond se faz importante nesses tempos avessos: “ermas de melodia e conceito / elas se refugiaram na noite, as palavras. / Ainda úmidas e impregnadas de sono, / rolam num rio difícil e se transformam em desprezo”.

 Ilustração: cartunista capixaba Amarildo

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