Em mãos brasileiras a tristeza é o avesso

(Por Eduardo Selga)

Está bem, não foi com a mesma contundência da metrópole, mas uma das heranças da colonização portuguesa que o povo brasileiro assimilou foi a tristeza. Mas só até certo ponto, porque ela é um tanto artificial e protocolar, à espera da primeira oportunidade para virar do avesso. Não é, portanto, exatamente a nostalgia de um povo forjado pelo oceano Atlântico a oeste e pelo sentimento de infinitude por ele provocado. Aliás, é uma sensação meio inevitável. Afinal aquilo que não tem ou dá ares de ter fim deve mesmo ser de uma amargura infinita.

Mas essa tristeza nossa de cada dia que vem de lá, Atlântico a leste, nem é propriamente oriunda de Portugal. É muito mais relativa ao Cristianismo, aos seus pecados, e à ideia por ele difundida de que o sofrimento é uma espécie de purgação desses pecados a ser cumprida em espaço e tempo terrestres. Um caminho necessário para destilar a alma travestida pelo corpo (ou será a alma que veste o corpo?).

O discurso de lá, aqui, não entrou a falar sozinho: o contraponto dos povos africanos e indígenas pode ter salvado a brava gente brasileira dessa sisudez ocidental, em que a alegria é associada à irresponsabilidade, na dimensão do indivíduo; à falta de desenvolvimento civilizatório, quando se fala de povo. O compasso africano, o batuque na cozinha que sinhá não quer, e os ritmos dele oriundos, principalmente, nos abriram o sorriso, de certa maneira interditando o langor do fado que, no íntimo de sua beleza, induz à melancolia. Nas artes brasileiras há inúmeras demonstrações desse sorriso-escudo, um sorriso escuso, como os versos de Noel Rosa “Se existe alma, se há outra encarnação / Eu queria que a mulata / sapateasse no meu caixão”. Não é um afronta à austeridade, a esse mau humor que, estando aqui, não é nosso?

Morrer é uma tristeza? Não sei, e talvez seja melhor nem saber. Mas para os que permanecem na estrada, seguramente, cá entre nós. Em relação aos que saem dela, não é possível haver certeza, exceto pela fé. Por isso, no choro do velório, a despeito da inevitável saudade, pode haver dois tostões de egoísmo por parte de quem fica: e se quem “fez a passagem”, que Deus sempre tenha em bom lugar, estiver morrendo de rir?

Dá para intuir que eu vou dizer ou insinuar que a morte é ou pode ser um evento feliz. E aí alguém mais erudito pode perguntar: esse cronista é cronista mesmo ou é o Quincas Berro Dágua de Jorge Amado, aquele personagem que depois de morto é levado a passear pela cidade pelos amigos? Se for o caso, o suposto cronista está advogando em causa própria, tentando generalizar uma experiência pessoal, ora pois.

A mim me parece razoável afirmar que não sou um personagem, apesar de algumas vezes duvidar um pouco disso. Ainda assim, o Quincas não é impossível, nem seu espírito está distante de nós, povo brasileiro. Vez por outra tomamos conhecimento de velórios alegres, cheios de piadas, bisca, dominó, bebida alcoólica, sepultamentos regados com o regozijo de música que foge ao réquiem. É claro que é uma alegria relativa, não é felicidade pelo óbito de outrem: costuma ser uma homenagem ao morto, fruto de uma visão da morte distante do peso da cruz.

Recentemente essa visão da morte e da vida, pouco ortodoxa como a própria gente brasileira, encontrou palco em Cachoeiro de Itapemirim, cidade logo ali, ao sul do Espírito Santo, que carrega a alcunha de Capital Secreta do Mundo, título que, além de ser uma possível criação de seu filho Rubem Braga, é hoje uma espécie de mito cultural do estado. Pretensiosa a fidalguia ou não, na cidade vez por outra ocorrem alguns fatos inusitados, como é de se esperar de qualquer metrópole secreta que se preze.

Pois o Brasil menos cativo desse banzo português e ocidental se manifestou em Cachoeiro, em fevereiro deste ano, no velório do senhor Gleisson, proprietário do bar no qual seu corpo foi velado com 31 caixas de cerveja, entre garrafa e latão, 15 litros de cachaça, além de roda de samba e partidas de baralho, segundo notícia do site do jornal A Gazeta. Enfim, um júbilo. Mais que isso, uma celebração altamente respeitosa e, ao mesmo tempo, subvertedora, combinação muito própria da ambiguidade que nos marca. É profundo respeito na medida em que essa era a vontade do falecido, mas vira do avesso as lágrimas, a tristeza, a seriedade e o tom circunspecto do momento. É uma reverência ao indivíduo e uma irreverência com a tradição coletiva, ou, por outro lado, ressuscita outras tradições, provenientes de África, talvez embalsamadas no inconsciente coletivo. Portanto secretas, como a “Capital”.

Mas não foi assim também nenhuma zona, o velório. Tinha regulamento, está pensando o quê? Os sambas quando se animavam muito, quando adquiriam cores vivas demais para um ritual daquele tipo, e por isso ganhavam vida própria, eram sutilmente repreendidos, porque afinal poderiam acordar o senhor Gleisson. E, sejamos razoáveis, ninguém merece ter o sono eterno interrompido.

O que aconteceu em Cachoeiro foi a variante não ficcional do personagem Quincas Berro Dágua, em certa medida. No romance de Jorge Amado o defunto é levado a passear por seus amigos de esbórnia, e no percurso “dança”, “bebe”, é abraçado pelos que o amam. Na capital secreta, o corpo não caminhou pelas ruas da cidade, mas se existe mesmo espírito ele decerto dançou ao som dos clássicos do samba e bebeu ao lado dos amigos, sinceramente agradecido pela despedida. E, como o personagem, é provável ter vagueado pelas estreitas ruas de Cachoeiro, seguindo o próprio cortejo. Deve ter dito palavras emocionadas, mas ninguém ouviu. Ou se ouviu ficou em silêncio, que é a melhor solução para lidar com palavras não autorizadas, como as dos fantasmas, principalmente os risonhos.

O cachoeirense senhor Gleisson, Quincas Berro Dágua, Brasil: realidade e ficção em uma terra na qual uma e outra nem sempre são claramente discerníveis no cotidiano, onde existe uma briga constante entre a tristeza que desembarcou das caravelas e a celebração da vida dos que em Pindorama já habitavam e dos que para cá foram trazidos pelos navios negreiros.quincas2

Foto: Paulo José e Marieta Severo em “Quincas Berro D`Água” (Rede Globo – Reprodução-Divulgação)

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