Fim do mundo

Subia o morro e, enquanto dirigia, cruzava os dedos para nenhum outro carro vir em sentido contrário por aquelas ruas estreitíssimas. Tinha certeza: estava perdida! Perguntou ao homem da padaria se era o caminho justo. O senhor confirmou e lhe deu indicações de como seguir adiante. O celular não tinha sinal. O GPS parou de funcionar. Deveria descer mais um morro, atravessar um rio e subir outro ainda mais íngreme.

Era dia de Sol, em um verão com aspecto de primavera. Ao menos naquele lugar, com um verde intenso. Desligou o ar condicionado, baixou o vidro da porta e uma brisa passou a tocar-lhe suavemente o rosto. Continuava seguindo quando viu lá adiante algo deitado no meio da estrada. O condutor de um veículo à frente era um senhor e dirigia tranquilamente. O coração e a mente entraram em desespero enquanto observava a cena.

Quem estava deitado percebeu algo aproximando-se. Apenas girou a cabeça, roçando no chão e, quando viu ser um carro, soltou apenas um suspiro. Voltou para a posição inicial em que tirava um cochilo. O automóvel parou e ele se espreguiçou. Voltou a girar a cabeça para ver quem o disturbava e mostrou os dentes. Naquele momento, tinha ficado claro: não queria ser incomodado.

O homem ainda assim desceu, calmamente, e aproximou-se. O cachorro soltou um latido. Homem e animal se entreolharam. Este levantou-se e foi para a beira da estrada. Esperou todo mundo ir embora e ela, pelo retrovisor, viu que o animal voltou para o mesmo lugar, para continuar dormindo.

Na travessia da ponte, a beleza reluzente do rio diante de tanto verde. Corrente cristalina correndo em meio deslumbrantes pedras e cascalhos. E algumas piscinas naturais. Água transparente e, diga-se, purificante, vinda das nascentes das montanhas. No que parecia ser o melhor e mais estratégico lugar ao Sol, uma manada de vacas leiteiras. Enquanto isso, banhistas procuravam outro local para também se refrescarem.

Pensou na sorte de não ter cruzado com o gado pelo caminho. Alguém já a havia alertado que, geralmente, a manada caminha lentamente, atravessando as ruelas das vilas, até chegar ao pasto mais adequado, ou, nesse caso, à beira do rio. E exige muita paciência para quem estiver guiando.

Mais adiante, dois gansos fazem o controle de quem chega. Ao perceberem qualquer rumor estranho, especialmente de carro, correm para a estrada e fecham a passagem. Obrigam o condutor a reduzir a velocidade, checam o veículo tocando o capô com o bico e circulam ao redor, mirando no olho dos passageiros, como sinal de advertência. Chegando à conclusão de que está tudo bem, deixam o veículo seguir.

Antes de tomar o último percurso, estava insegura e pediu informação ao casal encontrado por ali. Gentilmente, ao invés de simplesmente indicarem o caminho, tomaram um pequeno veículo e a levaram ao ponto desejado. Era impossível não admirar, ainda que assustada. Acostumada à cidade grande, surpreendeu-se com a generosidade daquelas pessoas.

Aproveitou, com um pouco de receio, para tomar água em uma bica, uma espécie de fonte jorrando o líquido fresco para os moradores locais. Divertiu-se quando viu um texugo cruzando a estrada. Continuou seguindo, ainda acompanhando o casal em meio ao que parecia ser uma imensa floresta.

De relance, ficou em êxtase quando viu um cervo correr pelo bosque. Estava impressionada. Ao mesmo tempo em que admirava, também tentava entender o que aquelas pessoas faziam naquele lugar. Como conseguiam viver ali? Não tinha nada por perto. Somente verde. Um silêncio quase incomodador.

Quando chegou ao destino, bufava de adrenalina. Na cabeça, pensava ter feito um rali com a máquina novinha, desenhada apenas para cidades com bom asfalto. A estrangeira a esperavam sorridente. O casal alegre brincava dizendo que, agora, ela estava entregue. Percebendo a vista lá do alto, antes de qualquer saudação, soltou:

— Isso aqui é o fim do mundo! Como vocês vieram parar aqui?

— Que isso, moça? Isso aqui é o começo do mundo!

Foto: Arlan Meijer

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