Funeral do Aldo

Abri a porta de fininho e avistei uma caixa grande, de cor bege borrada de branco. Ou seria branco patinado de bege? Bom, as simpáticas almas do povoado estavam reunidas em torno e em silêncio. O funeral ia começar.

Fui caminhando em diagonal e tomei, bem aos fundos da bela igreja, um lugar para sentar. De lá, vi, sob o caixote lacrado, um crucifixo e uma coroa de flores vermelhas, com alguns pontos brancos e ramos verdes. É um caixão e afirmam que ali está Aldo, o Pintor.

Somente hoje fui saber que Aldo era bendito de sobrenome. E fiquei pensando se ele estaria de acordo com a cor daquele caixão. Para um pintor que defende a arte como expressão livre, talvez sim. Entretanto, tinha Aldo religião para ser celebrado em morte?

À propósito: Aldo resolveu viver em liberdade a ponto de ser alforriado de decidir sobre o próprio funeral. Foi pego de surpresa pela Senhora Morte.

Desta vez, os amigos e vizinhos a apelidam de várias formas: brutal; chocante; estúpida; fantástica; inacreditável; incrível; sensacional; “era a hora”.

Eu não estava lá presente quando ela apareceu. Quem conta o fato diz que ela o enfeitiçou. O tomou pelas pernas e quebrou todos os ossos daquela cabeça pensante. O cérebro de Aldo chorou sangue mas aguentou firme até chegar ao hospital. Lá, os médicos o induziram em coma.

A maioria dos moradores ainda está ressabiada com os doutores e afirmam que, por causa disso, o castigado coração de pintor não aguentou o sono forçado prolongado por alguns dias. Parou quando a mente ainda estava em ação. A letargia era para aliviar a dor e a Senhora Morte aproveitou o belo adormecido para lhe dar um beijo mortal.

Hoje, dizem consternados:

— Fazer o quê? É a vida.

Nesses casos, não há o quase se que fazer, a não ser chamar pelo socorro e ouvir ou consolar quem sofre. Como um aconchego no colo de um “anjo protetor” antes que a Senhora Morte o tome de vez pelos braços, cabeça, cintura, pernas ou o que for e o leve de vez, vá saber para onde?

Aldo era um mestre da consagrada arte, música e cultura italianas. Teve seu apogeu e, quando foi constrito a pintar determinada quantidade de quadros por uma deliberada batelada de números a definidos interesses, jogou tudo para o alto e foi se refugiar em lugar bem longe, mas tão perto de tudo ao que ainda existe de original.

Para alguns, o paraíso; para outros, o fim do mundo; para mim, o pedacinho daquilo que nos desperta, em essência, o nosso lado selvagem, o nosso eu, puro.

É um lugar fascinante e inspirador. Entretanto, também é um ambiente muito sorrateiro. Há de se ter cuidado por onde se passa. Seus instintos são despertados. Sem perceber, você se torna mais você. Contudo, lembre-se: todos nós temos sombras. E elas costumam ser misteriosas.

Por aqui, as ruas ainda são estreitas para passear. As colunas das ruínas fazem cócegas nos andarilhos. As paredes das casas escorregam pela lataria do carro. O pastor ainda percorre com ovelhas e gados pelos os campos e ruelas. Quase tudo parece um precipício. É preciso ficar atento ao canto das árvores. Sim, por aqui, as árvores ainda falam!

Como o Aldo morreu?

Assim me contaram…

O inverno deste ano se prolongou meses adentro. Na falta de lenha boa, Aldo aceitou a oferta de um amigo que deixava a madeira seca no barranco logo abaixo da casa do pintor.

Para facilitar o trabalho pesado, Aldo tomou o carro, desceu a pequena subida e estacionou na rua íngreme. Tudo indica que esqueceu de atar o freio à mão, ou este deu algum defeito, e o veículo, já com alguns troncos, começou a descer morro abaixo.

Aldo se desesperou e correu para segurar o automóvel. Tropeçou no concreto e caiu. Lá se foram ribanceira abaixo: o pintor, o carro e a lenha.

Alguém, que passava por ali, ouviu os gemidos e gritou por socorro. O vizinho de casa e amigo correu para socorrê-lo, enquanto outros chamavam a ambulância.

— Foi minha culpa. Eu o deveria ter deixado ir — repetia, continuamente, para o amigo.

E pensa você: quando alguém chamava Aldo para cortar lenha no Bosco, ele costumava se recusar dizendo:

— Olhe só para as árvores. Escute! Parecem que elas me chamam! Você não vê como elas cantam e dançam? Estas folhas são os meus filhos…

Aldo foi casado, mas não teve frutos. Vivia sozinho. Morreu aos 82 anos. E, assim, todos se deram conta de que ele não tinha parente por perto. Depois de algumas tentativas da Polícia e investigadores em localizar alguém ou ente mais próximo, perceberam os vizinhos que eles eram a “família” do pintor.

Portanto, juntou-se, quem pode, para fazer o funeral. A Prefeitura aceitou arcar com alguns gastos, enquanto os moradores do vilarejo se fraternizaram como família real nos últimos dias do Pintor.

Quando peguei um punhado de terra para jogar sobre o caixão dele, um nó na garganta me sufocou. Naquela caixa não estava somente o pintor. Estavam todos aqueles dos quais eu não pude me despedir, a começar pelo meu irmão.

Observei o coveiro cobrir a catacumba e retirar com cuidado a pedra que caiu sobre a cruz do caixão. Reconfortante saber que, nos pequenos gestos, ainda somos gentis uns com os outros, ainda que na hora da morte.

Aldo era o Pintor, o anticonformista, o “cabeça dura”, o defensor da liberdade de expressão… Uma vez, meu parceiro e eu, percorríamos a estrada em uma caminhonete velha e um homem caminhava na subida, perto do rio. Aquele velho tímido e simpático aceitou nossa carona e não se importou de dividir o pequeno banco comigo. Procurava pela carteira. Estava em casa ou a tinha perdido? Não sabia. Foi assim que conheci Aldo.

Agora me vejo conversando com algumas pessoas “importantes”, entendidas de arte, na esperança de criarem uma exposição para apresentarem os quadros do Aldo. O objetivo é arrecadar fundos para se comprar a cova e construir um túmulo para o Pintor. Mas aposto que o Aldo nem se importaria de ser enterrado no quintal de casa. Tanta burocracia, até para os mortos?

Pois bem! Quando comentei ter interesse em ajudar o projeto, com a compra de um quadro — ainda que, para mim, desconhecido —, me veio uma fisgada em forma de náusea que poderia ser interpretada por “divisão de bens”. Esse termo me causa arrepios.

Daí, ouvi:

— Ele não tem família. Isso não é partilha de bens.

— Então, que coisa é?

Ok, já peço desculpas pela minha ignorância.

Apesar de não ter visto nenhum quadro do Aldo, acredito que sejam belos, porque um homem com a coragem de abandonar “tudo” para viver o próprio sonho em liberdade há de ser respeitado para toda eternidade.

E família? Convenhamos! Aquele ditado, dizendo “é melhor ter um bom amigo por perto do que um parente longe”, é praticamente um fato. E, outra, por experiência própria, quando a gente precisa — com algumas exceções de pai e mãe —, são os amigos que aparecem.

Sabe? Quero ser cremada. Pretendo deixar pago e ficar por aqui mesmo, no “meio do mato”. Em último caso, me jogue no mar.

Então, se em um futuro próximo você se recordar deste texto, e se fizer presente na hora da minha morte, enquanto “família”, lembre-se de que não pertenço a lugar nenhum e nem a ninguém, a não ser a mim mesma. Aliás, quais bens eu posso deixar para você?

Não espere nada de mim.

Maio de 2016

Foto da autora

Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras

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