Hóspedes

Sabe aquele tipo de hóspede que, no início, você acha simpático ou até pode dizer gracinha? Entretanto, passados alguns dias, passa a vê-lo como acomodado, invasivo e até não se sente bem em casa com a presença dele. E, claro!, conta as horas e os dias para que vá embora.

Ah! Caro leitor, eu já tive alguns hóspedes inconvenientes, mas nunca havia pedido para algum se retirar. Até que uma antiga conhecida de trabalho pediu para ficar lá em casa cinco dias. Como era período de festas e eu viajaria, resolvi oferecer o apartamento, gratuitamente, por 15 dias (outras pessoas já haviam ficado lá em casa e foi gratificante).

Quando retornei, meu parceiro e eu sentíamos como se nós fossemos os visitantes e fugíamos de casa o máximo que podíamos. Detalhe: eu tinha de ouvir críticas, muito além de construtivas, no lugar de, talvez, um simples “Obrigada!”

Quase sempre era: “Como um homem desses pode estar contigo?” “Você parece um moleque, nem maquiagem usa.” “Olha essa decoração!” “Vai sair para o futebol e nem vai deixar a janta para o “marido”; que tipo de mulher você é?” E blá-blá-blá.

Todos que assistiam aquilo observavam a visita com um ponto de interrogação. Depois, ouvia do parceiro e amigos: “Você deve ter sangue de barata.” “Acordo é acordo.” “Há limites para ajuda.” “Ela é neurótica e recalcada.” “Manda ir para o inferno.” “Acorda, mulher!” “ Como pode alguém vir para a Europa e sem dinheiro?” “Hoje, eu coloco ela para fora. Se você não fizer, farei ao meu modo. Basta!”

Eu pedia paciência a todos, enquanto, por dentro me corroía de tensão e mal-estar. Passados 29 dias, pedi, gentilmente, para ela sair da nossa casa. Até porque, o “homem da casa” — nas palavras da visitante — soltaria os cachorros em cima dela logo, logo.

Ainda assim, tive que contatar hotéis, porque a bendita não se comunicava em outro idioma senão fosse o dela. Resultado, limitamos nossos tipos de hóspedes, seja na cidade ou na montanha.

Com os humanos, podemos nos comunicar. Mesmo com todos os tipos de ruídos, a mensagem é recebida. Bom, com isso, aprendi até a dizer não quando não estou em condições de receber visitas. Seja para quem for. Agora, como fazemos se o hóspede for um ghiro?

O jantar foi no jardim com vista para o Monte Rosa. A sobremesa veio acompanhada pelo magnífico pôr do Sol e divinas paz e tranquilidade encontradas nas montanhas. Com o andar do anoitecer e brisa fresca, fomos para a cozinha. Enquanto organizávamos e limpávamos as vasilhas do jantar, sentimos um barulho vindo lá de cima do telhado. Seguia pelas tubulações e vinha em direção a nós duas.

Ficamos imóveis quando Laura reagiu:

— É ele! — comentou com o ar de surpresa.

— Ele, quem? — exclamei ainda mais estupefata.

Pois ele surgiu, todo formoso. Ficamos ali em silêncio, ou quase, porque cochichávamos admiradas.

— Oh, Que gracinha!

— Ele é muito fofo!

— Olha os olhos dele!

— Ah! Veja como ele nos observa?

— …

— Você está com fome? Que bonitinho! — dizia minha amiga, na esperança de uma resposta verbal.

Boquiabertas, observamos ele nos ignorar, descer pelo aquecedor até à pia da cozinha, onde estavam uma tigela cheia de água com algumas vasilhas dentro. Água limpa, se pôs a beber e nem fez caso da nossa presença.

— Ainda bem que não havia colocado o detergente. Assim, ele pôde beber. Tadinho, está com sede. Será que tem fome? — compadecia-se Laura.

— Talvez goste desse pedacinho de fruta aqui — eu buscava, ao menos, conhecer o gosto dele.

— Ele é tão fofo. Olha só! Você tem coragem de pegá-lo? — propôs, desconfiada.

— Sei lá, pode ser selvagem. É melhor ele se acostumar com a gente primeiro. Sabe, né? Estamos em região de floresta. Vamos dar um tempo a ele para se adaptar. Daqui a pouco ele vai embora — propus de leve.

Quanta inocência ou estupidez da nossa parte! Passados os dias, Laura me envia uma mensagem tarde da noite:

— Eu não aguento mais. Já não me sinto bem na minha própria casa…

— Quer conversar?

Já imaginava os hóspedes inconvenientes que ela costuma receber. Daqueles que trazem uma garrafa de vinho ou um grão de arroz e exigem banquetes como refeições.

— Eles são muito invasivos. Não os suporto mais… — choramingou.

— Laura, lembra do que te contei? Então, abra o jogo. Peça para eles irem para um hotel…

— De quem você está falando? — surpreendeu-se.

— Das suas visitas — respondi diretamente.

— Ah, não! Já foram embora.

— ?

E ela me envia uma foto…

— Ohhhhh! Nãoooooooo! — comecei a rir.

— É sério. Não o suporto mais.

— Desculpa, mas é impossível não rir com esta foto.

— Ele é dominante na cozinha. Trouxe a família inteira. São muitos e agora sentem-se os donos do território. Estão por toda a parte. Durante o dia, dormem e, à noite, fazem a festa. Como posso dormir?

— Calma, vou pesquisar e encontrar uma solução.

Os ghiros — glis-glis em português —, são roedores parecidos com esquilos, encontrados em algumas regiões da Europa. Estes últimos estão aqui por perto, mas nas árvores. Os ghiros invadiram as casas. Por aqui, no Norte da Itália, são habitações construídas no início dos anos 1700. Todas com assoalho de madeira e, neste caso, perfeito para a acomodação dos animais. As fêmeas reproduzem de dois a oito filhotes. Eles são letargos, podendo dormir até seis meses…

— O que devo fazer? Matar? Veneno? Não tenho coragem.

— Acredito que o ideal é levá-los para a mata — sugiro, não segura da ideia.

— Como? Devemos abrir a casa inteira. O jardineiro falou que há uma infestação em quase todas as casas. Só os gatos para a nossa salvação.

— De fato, a Nerina sempre vai à caça. Da primeira vez que a vi com um na boca, fiquei com o coração partido. Ela me trouxe de “presente”. É o reino animal, assim explicam. Verdade que, aqui em casa, não há. Creio que ela espantou todos — argumento aliviada.

— …

— Laura?

— Já sei! Você me empresta a gata?

— Mas, e a Tinghi? Gata e cachorra, será que elas entram em acordo assim, tão rápido?

No dia seguinte.

— Hoje à noite, deixarei a janela aberta. Assim, quando ela sair, você fecha a sua. Dessa forma, ela permanece em giro e, de repente, vem para minha casa. Vou deixar a cachorra presa no quarto. Ok?

— Combinado.

A gata saiu, como de costume. Fechei a janela. No silêncio da noite, ainda na cozinha, enquanto lia e tomava um chá, escuto um rastejar acima da minha cabeça. Do assoalho, entre o quarto e cozinha, escuto:

— Roc, Roc, Roc…

— Ah, não! Aqui não.

Abro a janela e grito, desesperada:

— Nerinaaaaaaaaaaa!

 

Setembro de 2016

 

Ilustração: http://www.nostrofiglio.it/famiglia/giochi/impara-a-disegnare/disegna-e-colora-il-ghiro

 

Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras.

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