Loucura lúcida

O que você faria se alguém te ligasse, no meio da tarde de um sábado, perguntando se tem interesse em entrevistar Maria Gadu e Alceu Valença? Assim, sem mais nem menos.

Pois foi o que aconteceu comigo. Estava em um festival gastronômico do Suriname em terras holandesas, quando uma publicação brasileira, em Amsterdam, me ligou dizendo que, dentro de algumas horas, teriam duas exclusivas com os cantores brasileiros, em território estrangeiro.

Foi o tempo de eu explicar a situação aos amigos holandeses — não faziam muita noção de quem eram os tais artistas pelos quais eu teria coragem de deixá-los para ir trabalhar, naquele raro sábado de Sol. Por uma questão de “amor ao trabalho”, tudo foi compreendido. Mas, no fundo, também tinha uma porção admiradora dos artistas. Um lado fã, ainda que muito discreto.

Pois bem! Engoli o que estava comendo, despedi-me do pessoal e fui. Estava fora do Centro de Amsterdam e gastaria algum tempo até o local do show. O deslocamento entre metrô e trem me dava 30 minutos. Este foi o intervalo que tive para preparar as perguntas.

A equipe da revista não tinha uma pauta, o roteiro que a pré-produção faz para conduzir o repórter sobre o tema a ser apurado. Como admiradora do trabalho dos dois, algumas curiosidades vieram à cabeça e rabisquei as perguntas no papel.

Costumam dizer que, jornalista que se preza, anda com caderninho e caneta. Tenho um tão pequeno que cabe no bolso do blazer. Muito prático, já vem com o lápis embutido, presente de uma amiga.

A tecnologia e o acesso virtual ajudaram na pesquisa dos últimos acontecimentos sobre ambos. Na verdade, caí de paraquedas no evento promovido pelo “Viva Brasil”. Alguns dias antes, tinha ido ver Caetano e Gil, outra promoção do grupo — fiquei sabendo não porque me avisaram, e sim pela casa de concerto que costumo frequentar. Enfim, nem passava pela minha cabeça trabalhar durante os espetáculos.

Foi no show do Caetano e Gil que descobri aquela publicação brasileira, até então, para mim desconhecida. Naquela noite, ao final da exibição, esbarrei com as produtores da revista e virei repórter inesperadamente para entrevistar os dois artistas. Fiz o meu trabalho: de supetão e me divertindo. Dias depois soube que, por algum motivo, a matéria não seria publicada.

Quer saber? Às vezes, penso que ainda tenho uma visão muito romantizada da jornalismo. Chego a ser estúpida com essa falsa ingênuidade.

Voltando ao Alceu.

Pelos bastidores, fui conversando com um e outro para saber mais do evento e as novidades daquele festival, quase desconhecido para mim. Sim, tenho estado muito desligada de tudo e de quase todos. De vez em quando, faz bem desligar-se do mundo e se ligar a si mesmo…

O show da Maria Gadu me deixou em estado profundo de êxtase.

— Uau! Que privilégio! — pensava silenciosamente.

Ao final da apresentação, a entrevista com a Gadu não aconteceu. O motivo ainda é um mistério. Mas nada me impediu de prosear com sua turma de músicos — por sinal, chamada de Banda Gadu. Rendeu uma boa conversa… Quero dizer: renderia uma reportagem de bastidores, embora, o “não da Gadu” tivesse gerado certa tensão.

Na sequência de concertos viria o Alceu. Pensei: “É muito talento para uma noite só.”

O show do Alceu já rolava, quando cheguei de fininho e assisti pelas beiradas o ritmo cardíaco da musicalidade brasileira. Antes mesmo da apresentação terminar, já estava com a equipe da revista à espera do músico. Esperamos e esperamos!

No decorrer das horas, por alguma incompatibilidade de ideias com a organização do evento, a equipe do informativo resolveu ir embora. Entreguei o crachá e o microfone (era uma matéria para TV on line). Senti-me nua enquanto profissional. Respirei fundo, naquele momento em que a gente se sente um pouco sem rumo. Passei a mão no bolso e me restava uma salvação: utilizar o telefone como gravador.

Quando participei do Projeto Rondon, aprendi uma frase: “Missão dada é missão cumprida.”  Creio levá-la para a vida. Poderia ter deixado passar a Gadu, mas cercaria o Alceu. Todavia, quando a revista foi embora, não tinha mais veículo para representar, a não ser a minha Carteira Internacional de Jornalista.

Os motivos pelos quais a publicação brasileira foi embora não cabe a mim aqui julgar. Ao contrário! Apesar da falta de profissionalismo da produção, sou grata pela oportunidade de terem me convidado para cobrir o evento.

Tendo paciência e respeito, temos possibilidades de comunicar nossas ideias, ainda que pareçam absurdas neste mundo doente. Ao final, a  gentileza da assessoria do evento foi grande e me permitiu encontrar com o Alceu no camarim dele.

Nessas horas, precisamos ser loucos. Mesmo não sabendo bem o que fazer ou o que perguntar, quando me encontrei com Alceu e Yane, esposa dele, fui apenas eu mesma. Quis ouvir a sabedoria de um homem que encanta a alma, um sábio que oferta músicas para além dos ouvidos.

Durante nosso bate-papo, entendi por Alceu o valor, a importância e o significado de uma loucura lúcida. Aprendi naquela noite que só podemos nos ofender se não nos conhecermos a nós mesmos. Pelas palavras do cantor, mergulhei nas profundezas deste mundo de vidas solitárias. Que lição!

Saí do Muziekgebouw aan ‘t IJ de madrugada, feliz da vida. Embora a matéria tenha sido descartada pela revista antes mesmo do áudio ser apresentado, não seria ético, assim penso, da minha parte, repassar o conteúdo para outro veículo. A não ser ao próprio Alceu, bem como foi solicitado.

Entretanto, depois de meses, e como este nosso Clube não tem vínculo comercial, penso que é um pecado guardar uma aula de cultura só para mim. Com a permissão de todos os envolvidos nessa história, agradeço a oportunidade e compartilho o áudio exclusivo daquele encontro louco, gratificante e mágico com Alceu Valença.

Ouça aqui:

Novembro de 2015
Foto: Arcervo particular
Edsandra Carneiro escreve às terças-feiras

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