Na terra de Madiba

nelson mandelaApesar de ter ouvido muitas recomendações contrárias — “A cidade é muito violenta.”; “Não vale a pena ficar nem um dia.”; “Não ande sozinha de jeito nenhum.”; dentre outras —, resolvi dedicar dois dias da minha viagem pela África do Sul para conhecer Joanesburgo.

Com mais de cinco milhões de habitantes, é a maior cidade do país.

Carioca da gema e moradora de Vitória, já estou acostumada a driblar a falta de segurança. Fico imaginando quantas recomendações devem ouvir os europeus e americanos antes de viajar para o Brasil. Além do mais, assaltos acontecem em qualquer lugar. Quem já não ouviu relatos de brasileiros que tiveram pertences furtados em Paris, Roma, Nova Iorque ou outra cidade do chamado Primeiro Mundo?

Acabamos contratando um guia, não por causa da violência e sim por outro motivo. Ao contrário da Cidade do Cabo — tema de outra crônica publicada aqui no Clube: “Na ponta da África do Sul” —, onde as distâncias são relativamente curtas, Joanesburgo exige certa logística para o deslocamento.

Com zonas Norte, Sul, Leste e Oeste, lembra São Paulo (guardadas as devidas proporções, é claro!). Outra semelhança é o clima. Uma típica garoa paulistana nos acompanhou o tempo inteiro.

O transporte público é ineficiente e um sistema clandestino de vans toma conta do trânsito. Nelas, não há qualquer indicação de itinerário. Eu quis saber como as pessoas escolhem qual pegar e o guia me explicou que um homem grita o nome dos bairros e assim as filas vão se formando.

Mas nem tudo é caótico em Joanesburgo. Do alto, é possível perceber como o verde predomina na paisagem. No bairro de classe média alta onde morava Nelson Mandela, as ruas foram arborizadas com jacarandás trazidos da Bahia. Fechei os olhos e pude ver o grande líder praticando sua corrida matinal sob a sombra das árvores brasileiras.

A emoção dos sul-africanos ao lembrar Madiba (nome do clã ao qual Mandela pertencia; refere-se a um chefe da tribo Thembu, que governou no século XVIII)  é contagiante. Todos têm uma história para contar. Um lembrou o dia em que o então presidente atrasou-se para um compromisso oficial porque pediu ao motorista que parasse o carro na estrada e ajudasse um homem com o veículo enguiçado.

Em outra ocasião, aceitou o convite enviado por um menino judeu e compareceu à festa de aniversário do pequeno, para espanto de toda a família. “Vim porque não se pode recusar o convite de uma criança” — disse, simplesmente.

Em Soweto, visitamos a residência que pertenceu a Mandela. O guia explicou que ele tentou morar ali quando saiu da prisão, mas tamanho era o assédio das pessoas que o herói da luta contra a segregação racial teve de mudar. A pedido dele, a casa foi restaurada e hoje funciona como um pequeno museu.

Depois da visita, almoçamos num restaurante em Soweto. No salão, minha mãe, uma amiga e eu éramos as únicas brancas. Todas as outras mesas estavam ocupadas por negros, homens e mulheres, bem-vestidos, alguns portando as indefectíveis pastas de executivos.

O próprio restaurante tinha um negro como proprietário. Cena, infelizmente, rara na África do Sul. No país onde os brancos representam menos de 10% da população, os negros ocupam posições subalternas, moram na periferia e quase não são vistos nos locais frequentados pelos turistas.

Ainda falta muito para o sonho de Madiba se tornar realidade.

• Cristina Fagundes escreve aos domingos

(Agosto 2014)

Foto gentilmente cedida pela Fundação Nelson Mandela.

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