Neste lado

No apagar das luzes de 2015, assisti ao belíssimo filme “Para o Outro Lado”, duas vezes. Só na segunda, percebi toda a sutileza e sensibilidade do diretor japonês Kiyoshi Kurosawa ao tratar de tema tão delicado: a morte.

Na história, os mortos circulam pelo mundo dos vivos como se fosse uma coisa perfeitamente natural: andam de ônibus, metrô e trem; pedalam bicicleta, distribuem jornais, cozinham, dão aulas, tocam piano e, principalmente, ajudam as pessoas “normais” a resolver antigos problemas.

Eles não retornam à toa, apenas para dar um passeio porque ficaram entediados com a eternidade. Cada um tem um motivo diferente para retornar à Terra. Assuntos sempre relacionados ao que os vivos andam fazendo (ou deixando de fazer).

No meu entendimento, o diretor usou os mortos como metáfora para falar sobre os vivos. Quantas vezes uma pessoa muito próxima precisa de ajuda e não percebemos? Quantas vezes fazemos alguém sofrer, mesmo não querendo? Quantos sinais de dor e sofrimento escapam aos nossos olhos, ou não queremos enxergar?

No filme, a esposa não percebeu que o marido estava doente, estressado com o trabalho, a ponto de cometer um ato extremo contra a própria vida. A tia repreendeu severamente a sobrinha só porque ela tocava a mesma música várias vezes ao piano. O homem brigava com a mulher. O pai não tinha paciência com o filho.

Nem é preciso assistir para saber que todos se arrependeram quando já era tarde demais. Na ficção, tiveram a oportunidade de reparar seus atos e ficar em paz com os mortos. E na vida real? Será que teremos outra chance?

Animal abandonado, vizinho solitário, amigo deprimido, morador de rua faminto, criança vítima de bullying… Muitos sofrendo em silêncio, bem ao nosso lado, e nem percebemos. Numa casa, vive, sozinho, um homem velho e doente. A ele, bastaria a presença dos filhos para aliviar seu sofrimento. No enterro do pai, todos choram. De arrependimento?

Independentemente de crença, religião, acreditar ou não em vida após a morte, “Para o Outro Lado” nos dá uma grande lição de como viver em paz “neste lado”.  Numa das cenas memoráveis, a esposa e a amante conversam olho no olho, cara a cara, civilizadamente (se fosse numa novela de TV, as duas estariam brigando, arrancando os cabelos uma da outra…). E a esposa dá uma lição de superioridade.

O que pode ser mais doloroso para a amante do que saber que o ser amado continua feliz ao lado da esposa, mesmo depois de morto? Para essas duas mulheres e demais personagens, o fim da agonia só foi possível após o encerramento de um ciclo, a solução de uma pendência. Resolver o que há para ser resolvido neste lado: eis uma bela receita para, quando for a hora, chegar em paz ao outro lado.

Janeiro de 2016
Foto: da autora
Eu, Cristina Fagundes, escrevo, quinzenalmente, aos domingos.

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