No princípio eram os adjetivos

César fora promovido. Iria trabalhar na matriz em outro prédio. No seu último dia, rolou a esperada saideira dos colegas num bar próximo. Bebidinhas, lembranças de causos engraçados, muitos risos, mais drinques.

Ele era o centro das atenções, mas só tinha olhos para Janaína. O grupo percebeu e, aos poucos, todos foram indo embora. Quando ficaram a sós, César se abriu:

— Janaína. Trabalhamos juntos há um tempo, mas nunca te disse que tenho carinho especial por você. Gosto do seu bom humor e, além disso, te acho carinhosa, criativa, elegante, inteligente, linda, meiga, simpática, viva…

Cara metódico, mente organizada, César fizera questão  de citar a sequência de adjetivos em ordem alfabética. Queria impressionar a colega.

— São seus olhos — devolveu Janaína.

— Não! Você tem todas essas qualidades.

— Você diz isso a todas.

— Tá! Retiro o “criativa”, mas, de resto…

— Como assim, “retiro o criativa”?

— Eu te elogiei duas vezes e você respondeu com duas frases feitas: “São seus olhos” e “Você diz isso a todas”. Então, no quesito criatividade… — brincou César.

— Ei! Que cara é essa? Não precisa ficar chateada…

— Esta é a minha cara mesmo. Além de não ser criativa, não sou linda — rosnou com uma ironia não percebida por César. E continuou:

— Linda é a Gisele e as mulheres que ganham a vida pela perfeição de seus traços. Estou naquele escritório porque sou competente.

— Tudo bem. Se isso lhe aborrece, retiro o “linda”. Você é muito mais que um rosto bonito. É carinhosa, elegante…

— De onde você tirou que sou carinhosa? Você é meu chefe… Quer dizer: era. Sou uma profissional. Sempre me dei o respeito e o tratei com seriedade.

— Calma, Janaína. Não estou insinuando nada. É que dá para perceber quando uma pessoa é carinhosa, até mesmo pelo trato com os colegas. Você não me entendeu. Retiro o “carinhosa”, para você não ficar chateada, tá bom?

— Sei — grunhiu, já sem esconder o mal-estar.

— E, como não entendi de primeira sua mensagem, faz um favor: retira também o “inteligente”. Do que mais você me chamou?

— Jan — apelou César. E, sentindo o clima de mal-entendido no ar, resolveu fazer graça.

— Olha! Vou retirar o “bem-humorada” e “simpática” por minha conta. Você não está num dia muito bom, certo? — disse sorrindo, mas não encontrou um sorriso como resposta.

Janaína o olhava séria.

— Quais os outros adjetivos, César? Diz.

Receoso, ele se agarrou ao que sobrara de seu galanteio, pensando se ainda era possível desfazer a situação.

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— Você é elegante, meiga, viva. Gosto de mulheres assim.

— Viva? Que ideia! Essa é de matar hein, César — cuspiu, ríspida.

Janaína ainda não tinha conseguido engolir o “não-criativa”, o “não-linda” e todos os outros elogios deletados, segundo ela, tão facilmente. Olhando-o seriamente perguntou:

— O que você quis dizer com isso: ser meiga e elegante seria uma atitude de esperteza minha? Sua promoção já era certa. Então, pela sua ótica, tenho me arrumado mais, te tratado de forma mais doce, para ver se também subo na empresa. Está insinuando que sou uma vivaldina, César, quando me chama de viva?

— Janaína, vou pedir a conta. Esse papo me deixou morto de cansaço. Nos falamos em outra ocasião, ok?

No dia seguinte, Janaína chega para trabalhar e a colega ao lado mal a deixa iniciar o computador.

— Deu para perceber o maior climão entre você o César na despedida dele. E aí? Conta, conta.

— Não rolou nada. Não quero ver aquele cara tão cedo.

— Mas, o que houve? Ele parece ser uma pessoa tão bacana.

— Também achava, mas é um insensível. Precisava ver as coisas que me falou. Também, rasguei o verbo com ele. Afinal, não dá para eu me envolver com um homem que não enxerga minhas qualidades, né?

Martha Aurelia Gonzalez escreve, quinzenalmente, as quartas-feiras no Clube de Crônicas

Imagem: www.semtedio.com.br

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