O self de Narciso em Oswiecim

Na época da faculdade, um professor de fotografia comentava, com sarcasmo e ironia, as fotos do tipo “euzinho”, em ascensão com as câmeras digitais. De fato, depois de alguns anos, essa necessidade de admiração ganhou grande promoção com a chegada das redes sociais. Mas, até que ponto queremos ser bajulados pelos outros?

Vale lembrar que, segundo a Psicologia, o autoconceito de quem somos é desenvolvido por meio das interações sociais; no modo como observamos o reflexo do outro em nós e vice-versa. E assim, a manutenção da autoestima pode ganhar aspectos dominantes, vaidosos, manipuladores, egocêntricos, superiores, agressivos e até de fragilidade. Escrevo em tom simples e popular. Perdoem-me os doutores no assunto.

Então, o que nos leva a essa necessidade de contemplação absurda, a ponto de sermos capazes de fazer registros fotográficos, ou os chamados “selfies”, em lugares onde se requer reflexão e respeito?

Pois bem! Recentemente, percorri alguns países escandinavos, atravessei o Mar Báltico e os Estados Bálticos e visitei a Polônia. Meu objetivo em viajar é conhecer o outro para descobrir a mim mesma. Pelo desconhecido, descubro quem seu sou e ou o que quero ser. E, claro!, o trajeto foi muito especial, rico de aprendizado e recheado de aventuras. Conto em outro texto.

Entretanto, o que mais me impressionou foi a necessidade do ser humano em registrar selfies em lugares como nos Campos de Concentração de Oswiecim (Auschwitz), onde, ao pisar na trilha do trem em frente a Birkenau (Auschwitz II), uma emoção “inexplicável” manifestou-se no meu corpo e emergiu-se em lágrimas escorrendo pelo rosto. O momento foi tão dolorido que posterguei a visita naqueles locais.

Como buscar o melhor ângulo de enquadramento no visor de um celular no Memorial e Tomba do Soldado Desconhecido, em Varsóvia, onde — faça chuva, Sol, vento ou neve — há sempre dois soldados zelando pelo túmulo em homenagem aos que deram a vida pela Polônia? Por acaso, presenciei uma troca de guarda à meia-noite; estava muito frio e foi impossível não se emocionar.

Ou, como sentar e fazer poses nas cadeiras de bronze, na Praça dos Heróis do Gueto, em Cracóvia, símbolo dos pertences e martírio dos judeus na espera do trem para um lugar sem volta?

Talvez você tenha visto “Yolocaust”, um trabalho do artista Shahak Shapira (nascido em Israel e residente na Alemanha), que selecionou uma série de imagens de turistas no Memorial do Holocausto, em Berlim, e fez uma montagem fotográfica com vítimas da época da Segunda Guerra Mundial. Pois bem, ao vivo, era como se eu enxergasse o self do narcisismo em todos esses e outros lugares. Ou seja, a exaltação do “eu” na paixão de um indivíduo pela própria imagem.

Mesmo que boa parte desses turistas possa nunca ter frequentado uma escola, ou sequer tenha tido uma aula de história por meio de professores ou de pessoas mais velhas, é de se afirmar que, durante a viagem, o assunto será abordado e, de uma forma ou de outra, saberão que determinadas locações foram construídas com objetivos únicos: extermínio em massa de gente e, ou, homenagem à morte daqueles que se foram durante as batalhas de guerra.

Nos três campos de concentração de Auschwitz, por exemplo, milhares de seres humanos foram exterminados pelas mãos dos nazistas. Apesar de ter se tornado uma “atração turística”, não são castelos ou ruínas onde vida e morte caminham lado a lado de modo quase romântico.

Bom, se quiser conhecer a história de um sobrevivente de um desses espaços, indicaria ler “Se questo è un uomo” (“É isto um homem?”, título em português brasileiro), de Primo Levi. Um judeu-italiano, prisioneiro do Campo de Concentração em Monowitz, conhecido como Auschwitz III, trabalhou na fábrica de material químico para produção de borracha, intitulada Buna Werke Schkopau.

Nas memórias de Levi, a substituição do próprio nome por um número revela o conflito na intrínseca noção de identidade. Um testemunho autêntico da dignidade, humilhação, degradação, força e resistência de um homem à beira do extermínio.

Todavia, foi Anne Frank quem me despertou a curiosidade em conhecer o passado de guerra — quando li o diário dela, no Brasil. E hoje, vivendo entre Holanda e Itália, conheço e convivo com pessoas que sabem muito bem o significado dos termos “guerra”, “campo de concentração” e “extermínio”.

Nasci em tempos de “paz” e hoje faço parte de uma família que “salvou” a vida de judeus, como se diz por aqui, comprovado em documentos. Na biografia de um dos sobreviventes, a mãe teve tempo de escondê-lo atrás das cortinas antes de ser metralhada, enquanto outros familiares eram deportados. Ele era apenas uma criança.

Em meu convívio, há quem “salvou” e há quem pode ter “entregado” judeus e outras nacionalidades para os nazistas. As discussões trazem controvérsias e há sempre uma dúvida no ar. Talvez nunca saberemos a verdade.

Muitas vezes, as opiniões se divergem entre os de “sangue azul” — ou “sangue sujo”, como já ouvi algumas vezes sobre o meu sangue. Pode soar racista, e é — palavras podem violentar, mas também podem curar. Então, procuro tentar compreender o próximo para enxergar quem eu sou e, assim, sigo mais forte. Afinal, somos todos frutos da ignorância.

São poucos os que falam sobre o assunto. As conversas geralmente surgem de modo quase indolente, quando menos se espera. Em todas há sempre ressentimentos. São prosas e narrativas de muita ponderação. Poderia citar várias, todavia, o que posso lhe assegurar é que o meu “sangue sujo” provém da mistura de todos os tipos de ascendência deste mundo. Nessas minhas andanças, tenho investigado e encontrado as minhas origens. Não há culpados nem coitados porque, de alguma forma, participamos todos deste meio.

Bom, quem sou eu para criticar? Proponho apenas discernimento em nossas atitudes. Conhecer o outro é descobrir o passado para termos mais esperança para o futuro. Todavia, o mais importante para esses dois termos é vivermos o presente com respeito e consciência dos nossos atos.

Essa tendência de nos preocuparmos com o que o outro pensa de nós, em como somos ou seremos apresentados e vistos, é apenas reflexo da ilusão de pensarmos em nós mesmos o tempo inteiro. Acima de tudo, em tempos de redes sociais virtuais, mera questão de aparência.

E, sinceramente, o ser humano é um bicho muito estranho. Talvez seja por isso que tenhamos dificuldade de perceber, entender e comungar com a nossa própria espécie. Possivelmente, se compreendêssemos o sentido do amor ao próximo como a ti próprio, o belo e jovem Narciso não teria morrido afogado em sua própria imagem.

Setembro de 2017

Foto da autora

Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras.

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