Para o exibidor ganhar um Oscar

Como grande parte dos amantes de cinema, a esta altura, já tenho a minha lista de favoritos à estatueta do Oscar. Próximo à festa, é sempre aquela correria pelas salas de exibição: tento ver os indicados antes da premiação.

Muitos, hoje, não fazem esse tipo de maratona. Assistem aos filmes, como as séries, no conforto de suas casas. Podem, assim, repetir cenas, ver making-offs, se conectarem com blogs e canais detalhando cenas e histórias ligadas à obra. É bom isso? É ótimo! Também gosto, e, às vezes, me rendo.

No entanto, tenho uma paixão pela telona, pelo ambiente do cinema. Adoro sentir o som all around you me abraçando. Por melhor que seja a aparelhagem de uma casa, esquece. Para mim, a emoção do cinema é única.

Parece saudosismo, coisa de quem acompanha Oscars há muitas décadas. É, pode ser, mas é um pouquinho além disso. Entrar em um cinema é permitir-se suspender a vida aqui fora e entregar-se, por algumas horas, a outra história. Isso é difícil de se conseguir no sofá da sala.

Cinema sempre foi um programa frequente na minha vida. Criança, batia ponto aos domingos de manhã, no Metro Copacabana, no Rio de Janeiro, para rir de Tom e Jerry. Ainda era menor de idade quando consegui entrar em um festival de filmes italianos e conhecer o exagerado Fellini. Comecei, de peito aberto, com “Amarcord”, minha doce vida de amante dessa arte.

Não me denomino cinéfila, pois entendo o termo como alguém com boa cultura de cinema. Não sou total ignorante, mas meu papel está mais para uma apreciadora.

Não sou capaz de opinar (desculpa o plágio, Glorinha Pires) sobre a construção da linguagem cinematográfica, a iluminação correta ou o enquadramento perfeito.

Assisto a um filme de Stanley Kubrick, acho genial e ponto. Me delicio mais é com a emoção em mim provocada. É aí que está o meu barato: mergulho nas imagens, na história; deixo-me levar. E, quando o filme acaba, ainda tomada por aquela história, tenho dificuldade de voltar assim tão rápido à realidade. Espero passar os créditos para ir retornando do mergulho cinematográfico.

Os exibidores reclamam a perda de espectadores para Internet, Netflix e afins. Mas a verdade é não estarem sabendo enquadrar bem seu produto. Em vez de venderem lugares no cinema, deveriam comercializar uma experiência (para ficarmos no conceito da moda) cinematográfica. Ganharíamos todos.

Hoje, infelizmente, a maioria dos cinemas encastelou-se em shoppings centers. Isso torna ainda mais difícil sair de um bom filme assim, rapidamente, sem o resguardo conveniente. Você logo dá de cara com dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num pão de gergelim ou com tudo com 50% de desconto.

Não combina, né? Em shopping, o astro principal é o consumo. A trilha sonora é formada por burburinho típico, incidental, apenas uns berros infantis aqui e acolá. As cenas se repetem, o roteiro não surpreende.

O arco dramático da maioria dos personagens é fraco e previsível. O grande enfrentamento é com o preço do estacionamento. E nem a oferta de lojas consegue fazer com que o figurino seja interessante. A maioria se veste de maneira similar, tal qual suas atitudes.

Abolir os cinemas em shoppings está fora de questão. Então, exibidores, criem uma salinha de descompressão — para aqueles interessados em usar, fique bem claro! Os mergulhadores profissionais passam por esse processo ao emergirem de águas profundas, com a pressão se reduzindo à medida da aproximação da superfície.

Seria mais ou menos o mesmo raciocínio: quanto mais denso um filme, mais tempo na descompressão. Uma comédia romântica, um tempo menor; um daqueles filmes franceses ou alemães de nos tirar o eixo, um tempo maior.

Se for muito difícil ou cara a criação do espaço, poderia, ao menos, aumentar o intervalo entre as sessões. Assim, ao final dos créditos, ainda na penumbra, tocaria uma música (de preferência, da própria película) e, só após o término desta, as luzes se acenderiam (mesmo assim, não por completo, de uma vez só, mas num crescendo da luminosidade). Ninguém faz isso em casa.

Ir ao cinema é bem mais que sentar-se em uma sala de projeção. Acredito haver colegas de poltrona concordando comigo. Penso que, com essas poucas modificações, ganharíamos todos. Ideia dada, basta, exibidores, colocá-la em ação. E que a força esteja com vocês!

Martha Aurélia Gonzalez escreve, quinzenalmente, às quartas – feiras

Imagem: www.tvrsul.com.br

Verão, 2018

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