Senhor Invisível

Quando escrevo uma crônica, logo de primeira, em um impulso único e carregado de inspiração, principalmente rabiscada no meio da noite, costumo dizer: “Baixou o espírito.” Ou, quando releio um texto, como, por exemplo, a tese de conclusão de um curso, pergunto a mim mesma: “Fui eu? Nossa! Que santo me deu essa frase?”

Isso já deve acontecido com você, porque não devo ser a única mortal aspirante a escrita que passou por isso, né!? Quem é o espírito, então? Obviamente, poderia recorrer e pedir explicações aos entendidos do assunto. Mas, como eu sou tudo, todas as crenças, e nada, permanecia na minha até um espírito resolver se manifestar.

Aviso, de antemão, assumir responsabilidades por todos os meus devaneios linguísticos antes de você continuar esta leitura. Ah! E mais: estava completamente lúcida quando ele apareceu. Tinha tomado um gole de água da torneira antes de entrar naquela sala para uma massagem terapêutica, quântica não sei lá das quantas…

Bom, foram anos de uma dor, entendida por vazio no peito, solidão da alma, paradoxo exclamado por mim como “Eu me sinto sozinha.” Mesmo em presença da família, do parceiro, dos amigos, dos colegas de trabalho etc., sempre tive uma sensação estranha, trabalhada nos últimos anos em terapia.

Devo dizer: amo o silêncio. Tenho necessidade de ficar sem ninguém, ter meu tempo, viajar sozinha, ir ao cinema desacompanhada, caminhar na floresta apenas eu, fazer coisas desafiantes para descobrir meus limites quando solitária. E, claro!, também gosto de estar em companhia e compartilhar o espaço com o outro. Entretanto, necessito ter tempo a sós comigo mesma.

Todavia, o “sentir sozinha” expressa aquele vazio da alma, a escuridão do eu interior, da culpa, da solidão, do não saber o quê. Há um abismo enorme entre ser e existir. Desculpe-me o moço francês, mas pensar não te faz existir. Na verdade, você quase se afoga nos pensamentos buscando uma razão para existir, ou no que seria quando lhe dizem ser aquilo que você deve ser… Ah, deixa isso para lá…

Pois bem! Para curar dores, físicas ou mentais, a gente recorre desde a medicina tradicional até a esotérica, espiritual, quântica, neurociência… Queremos acabar com o que nos incomoda, de uma forma ou de outra.

Depois da peregrinação por consultórios, pela indicação de uma colega portuguesa, fui parar na maca de uma profissional holandesa, especializada na energia quântica do corpo. Naquele final de tarde, ainda buscando um lado racional para as perguntas e respostas, já quase perto do fim da sessão, fui tomada por uma crise de choro enquanto tentava realizar um simples exercício de me permitir xingar e expressar palavrões.

Que tédio! Descobri não saber xingar. P* q* p* e m* são os palavrões tops da minha lista, aqueles soltos quando estou quase explodindo. Que limitação de palavras sujas! A moça tentou até ajudar: “Solte a sua raiva! Vai! Você consegue. Diga: ‘F*!’”

Lembrei do enfermeiro de uma ambulância me alertando sobre eu ter todo o direito de xingar, de colocar a minha ira para fora. “Grita: ‘P*!”, ‘C*!’” Na teoria do rapaz, gritar e xingar aliviariam a dor e a tensão. Eu travava os dentes e pensava, em meio à dor física, com um leve sorriso no rosto: “Os cariocas são mesmo hilários! Obrigada, cara, por me fazer rir logo agora!”

Voltando ao consultório. Obviamente, eu estava completamente despedaçada emocionalmente e irritada comigo mesma por estar levando ao limite esta busca absurda por equilíbrio mental, físico e espiritual, querendo saber quem sou de verdade.

Continuava de olhos fechados, choramingona, fervendo de raiva e tremendo de fraqueza. Pensei em desistir e dizer: “Basta! Chega! Vou para casa!” Antes de expressar qualquer coisa, a mulher faz um comentário mega-ultra-estranho-incômodo e, naquele momento, (des) necessário:

— O seu avô está aqui!

Repito: tinha tomado apenas água pura hora antes de ouvir aquilo.

Eu soluçava e devia estar fora de mim durante aquela conversa, instruções ou diálogos em inglês — há certas coisas difíceis de se expressar em outra língua. Sentimentos, então! Óh! Vixe! O mesmo vale se você compreende algo especial em outro idioma e tenta traduzir ao “pé da letra” para sua língua materna. Às vezes, nem faz sentido. Talvez, por isso a Bíblia ser interpretada de trocentas mil formas e há caos em nome dAquele de paz.

— O seu avô está aqui! — repete a moça no típico tom holandês de chamar sua atenção quando há algo importante para ser dito: direto e objetivo.

— Oi? Desculpe. O que você disse?

— O seu avô está bem aqui nesta sala.

Abri os olhos soluçando tanto sem lembrar a razão pela qual chorava.

— Desculpe-me. Avô? Qual avô? Como assim? Quê? De quem você está falando? — vários questionamentos saltavam de minha boca, metralhando aquele ser, suspeitando e já a acusando de algum tipo de sabotagem com os mais fracos de esperança e de fé.

A holandesa silenciou. Encarou-me e olhou para o meu lado direito. Circulou os olhos por de trás de mim e parou pelo lado esquerdo, como se estivesse observando alguém caminhar pela sala. Pelo jeito, ele entrou pela janela e eu estava de costas para a claridade.

— Este senhor é o pai do seu pai.

— O quê? Como ele é então? — a pergunta foi uma tentativa de quebrar a possível impostora. Saiu da boca para fora sem nem eu saber como era ou é o pai do meu pai.

Ela olhava para o “além” e me descrevia as características de um homem que nunca imaginei, nem sequer tive a curiosidade de perguntar ao meu pai. Um passado de mistérios.

— Você está dizendo que este senhor é o meu avô paterno? Como pode ser se eu nunca conheci ou vi o pai do meu pai, nem por foto? Ele morreu bem antes de eu nascer. Nem minha mãe o conheceu. E meu pai não tem foto dele… Disparei a falar e questionar, enquanto tremia e sentia cambalear em meus raciocinais não tão lógicos.

— Seu avô é um homem muito gentil, paciente e educado. Ele diz que está aqui para ajudar você.

— Hum?! Ah é?! Então, o que ele quer comigo? — argumentei ressabiada.

— Ele repete estar aqui para te ajudar. Diz que sempre esteve com você. Não precisa se sentir sozinha. Ele vai continuar com você. Ele está com você — dizia a moça, calmamente. Pensei: “Como ela sabe que me sinto sozinha?”

Perdi a voz enquanto tentava assimilar aquela presença. Depois de um profundo silêncio, deitada no leito, perguntei:

— Por que não o vejo?

— Você sente a presença dele?

De fato, havia um calor muito forte pelo meu lado esquerdo. Quis saber, enquanto tentava expulsar da minha cabeça os pensamentos de “Isso é loucura”, “Ela é uma farsa”…

— Onde ele está agora?

— Aí, bem ao lado, perto do seu ombro — e olhou na direção, como se encontrasse o olhar de alguém.

Sem ter mais o que argumentar, ainda assim questionei:

— Por que ele não fala comigo, só com você? — sim, eu parecia uma criança de cinco anos de idade.

— Ele está aqui para isso: falar com você. Sou apenas um instrumento, uma forma de energia. Então, o que você quer dizer para seu avô?

Óh, céus! O que vou dizer para ele? Me veio rapidamente perguntar por que o meu pai ainda deve sofrer por ter sido abandonado pela mãe quando era criança. Pensei no assassinato do meu irmão, pela culpa que o meu pai sente por algo fora do alcance dele. Talvez este senhor entenderia, até porque ele também teve um filho assassinado. Um tio que quebrou tabus e se foi antes de ter a chance de conhecê-lo. Um tio “drag queen”, o primogênito que meu pai se orgulha de ter tido como irmão. Um homem inteligente, sensível e que “pensava alto”.

Queria perguntar sobre a assustadora Caixa de Pandora que é o passado da minha família. Ou, por que a mãe do meu pai ignorava os netos, filhos de uma preta. Uma negra que, mesmo depois de quatro anos de matrimônio com meu pai, quando, finalmente, engravidou pela primeira vez, e de mim, foi julgada pela própria mãe e rejeitada pela sogra. “Filho de preto era problema, sem futuro” — sentenciava-se, não muito tempo atrás.

Assim, quando os filhos nasceram, minha mãe criou uma espécie de mantra constantemente pronunciado dentro de casa: “Onde esses e outros brancos colocarem os pés, os meus filhos também vão pisar.” Voltava para nós e repetia: “Vocês terão os mesmos direitos que os brancos. Vão estudar. Terão um futuro próspero. Serão pessoas de bem. Ouviram? Entenderam o que eu disse?”

Muitas vezes, nos sacudia, como para ter certeza das palavras entrando pelos nossos ouvidos e penetrando nossos cérebros. Era uma guerra com bombas jogadas por ambas as partes. E nós, meus irmãos e eu, fomos lançados para o combate completamente perdidos em meio ao tiroteio.

Queria dizer para o homem naquela sala que fui a soma dos dois lados, contradizendo algumas teorias. Ganhei impulso quando me apoiei pelos cantos e beiradas e pisei fora da linha entre as cores, porque eu sou preto e branco, sou o café com leite desta história, o “koffie verkeerd”, o “cappuccino”. Minha história, meu combate, tem essa mistura de sabores — contudo, sem açúcar.

Queria perguntar tanta coisa: o que ele fez? Por que a mulher dele o deixou? Por que ele e o meu pai perderam contato? Só queria saber os motivos de todos esses acontecimentos… Em vez disso, soltei com a voz embargada:

—Vô? Oi!

Silêncio.

— Bom, eu… Sei lá o que dizer! Na verdade, me sinto estranha e louca por conversar com o que pode ser uma alucinação. Ops, desculpa. É que… Nossa! O senhor fala inglês?

— Edsandra, não há barreiras neste universo. O que você quer dizer para o seu avô?

Pensei: “Hum! Acho que ela está perdendo a paciência comigo, mesmo ao me lançar este olhar de serenidade e gratidão.”

— Bom… É… Por favor, o senhor pode ajudar seu filho? O senhor sabe, né!? Ele acabou de perder um filho. E o senhor deve conhecer o sentimento de ter um filho assassinado… — antes de ser interrompida, perdida nos pensamentos, me dei conta que o tio morreu quando o pai dele já tinha virado pó.

— Seu avô está aqui para você. É o momento de olhar para si e cuidar de si. Então, o que você deseja dizer para o seu avô? Ele ainda está aqui. É um senhor muito gentil. Muito paciente.

— Bem… É… Obrigada — e danei a chorar, tremer, chorar, soluçar, chorar… Ia falar o quê? Nem tudo o que a gente pensa sai assim em um primeiro “encontro”. E, outra: na minha cabeça, o Senhor Invisível ainda era um “desconhecido”.

Fui abraçada por uma onda de calor intensa e, aos poucos, me acalmando, ganhando uma alegria inexplicável, meio boba, anestesiada, como uma criança feliz.

— Edsandra, perdoe e ame a si mesma. Você não está sozinha. Acredite: seu avô está com você … continuou a moça, professando o que me parecia meio óbvio ao me dizer.

Fui para casa aérea. Contei para o Arjan, o ateu mais espiritual que conheço. Para a minha surpresa, ele me respondeu emocionado e me recordou de vários estranhos acontecimentos, tudo muito tranquilo: algumas vezes, acordamos com passos pelo quarto; senti um afago carinhoso sobre o edredom, por cima das pernas; minha mão foi segurada enquanto adormecia depois de crises de choro e raiva; e sempre a presença em forma de calor, principalmente quando estou sozinha na montanha.

Mas, para tudo, preferíamos acreditar serem reações químicas e físicas do meu corpo, apesar de sempre pensarmos: “Sim, existe algo que não se pode explicar.”

— Você conhece esta moça? — questionou Arjan.

— Não. Nunca a vi. Ela é holandesa “pura” (ironizo as aspas com os dedos enquanto reforço preconceitos). Quem me indicou foi uma moça simpática de Portugal — e assim me dei conta de ninguém saber do meu avô, a não ser minha família. No meio disso, fiquei intrigada: “Como meu avô foi aparecer na Holanda e falando inglês?”

Liguei para a casa dos meus pais. Emocionada, contava a história. Pensei que eles fossem reagir perplexos, expressando: “Nossa filha precisa de muita terapia e apoio psicológico. De fato, faltou diálogo na nossa família.” — ou coisa assim. Em vez disso, a maior serenidade e tranquilidade em saberem da novidade.

Como? Eles estavam felizes por eu ter falado com um avô morto há anos, antes de eu nascer? Isso é normal? Ter a atenção de um avô, mesmo em forma de espírito e invisível? Ou seria muita compaixão dos meus pais por mim? Óh, céus! Será que enlouqueci de vez?  Ou seria tudo uma loucura lúcida?

Pela primeira vez ouvi meu pai relatar as características físicas do pai dele, exatamente como a holandesa descreveu. Contou um pouquinho da vida dele ao lado do pai e relembrou ter sido criado pela avó. Recontou detalhes do período de infância e adolescência. Fiquei impressionada com sua memória e habilidade em relatar aquilo.

Nossa! Ele é um contador nato de histórias. Lembra detalhes, nome de ruas, apelidos. Quando quis aprofundar algumas questões, pronto: “Ah, isso não sei não, Sandra.” Sabe? Vão se formando lacunas na vida de todo ser humano talvez nunca preenchidas.

Minha mãe, feliz com a história, contou o que o meu pai sempre diz a ela. “Seu pai diz sempre que seu avô era um homem muito educado e gentil. Trabalhador. Ele sempre fala bem do pai…”. Opa! A primeira frase é repetida. Então, este senhor deve ser mesmo muito carismático, passei a crer. Mamãe fala dele com tanto amor e carinho, mesmo sem nunca o ter conhecido pessoalmente.

Depois que “encontrei” meu avô, passados alguns meses, entrei em uma jornada mais intensiva, percebendo o passado ter acontecido. Não significa eu dever aceitá-lo como tal. Aconteceu. Ponto. Não sou mais aquela Edsandra que saiu do Brasil. O medo que sinto é a escuridão do processo de descoberta da essência do meu próprio ser, da verdadeira Edsandra.

Com as experiências do passado manifestadas, hoje, em aprendizado, descubro, aos poucos, a minha própria história. Compartilhar nos faz crescer, amadurecer. Estou me despindo sem vergonha da minha nudez, da minha imperfeição. É um processo de revelação, e necessita tempo para ser observado e assimilado. Se bem… Para ser sincera, só tirei o sapato esquerdo e já estou falando de “strip-tease”. Que tipo de performance é essa, hein?

Hoje, a presença do vovô me fez repensar a vida e adotar uma postura diferente em relação ao passado. Passei a compreender melhor os únicos três avós que conheci em períodos curtos. E, na falta da presença de todos, adotei uma avó. Ela é como o vô. Não a vejo, a gente nunca se viu, mas sei que ela fala comigo e me dá muitos conselhos — isso dá outra história.

Obviamente, nunca saberei as razões para a mãe do meu pai ter abandonado os dois filhos e marido e se aventurado em novos relacionamentos, deixando outros bons frutos. Nunca vou saber as razões dela por ter me rejeitado, por ter recusado os netos da nora negra e do filho “rebelde”.

Lembro desta avó na escadaria da casa dela com um olhar não de avó e depois dentro do caixão. No seu enterro, conheci boa parte da família. Depois de mais de duas décadas, retomei o contato. Sou grata a ela por estes belos frutos. A árvore é gigante para uma longa e proveitosa colheita. Se soubesse como eu gostei da irmã dela, minha tia avó, talvez poderíamos compartilhar amor sem barreiras raciais ou sociais.

Nunca vou saber as razões dela. Nunca vou saber o que teria para me contar. Apesar de tudo, devo honrá-la como avó: a mulher que gerou o meu pai. Sei disso, porque o único tapa que levei do meu pai foi quando me revoltei contra a mãe e passado dele. O tapa foi uma veloz e furiosa reação, atingindo em cheio minha boca.

Doeu e sangrou. Tinha uns quatorze anos. Guardei a raiva e aprendi a não expor rancor. Ainda assim, foi minha lição de respeito e gratidão ao próximo, seja ele quem for.

Com a presença do vovô, aprendi que, talvez, a mãe do meu pai seja quem mais necessitou de amor. Sabe aquela máxima, quando os psicólogos dizem: “Quem sofre é quem mais faz o outro sofrer?” Isso faz muito sentido em se tratando dos meus laços maternos e paternos.

Quem sabe, o vovô tenha aparecido, por meio de uma desconhecida bem além-mar, para me mostrar os caminhos das minhas raízes? E, por meio destas raízes, escalar a difícil montanha do perdão, do amor e da paz interior.

— Vô? Eu também estou aqui, agora mais confiante. Sei que o invisível me salta aos olhos quando seguro a sua mão. Vamos? Ah! Por favor, durante o caminho, o senhor pode me contar outra história?

Novembro de 2016

Ilustração: “Oud vrouw en jongen met kaarsen”, de Peter Paul Rubens c.1616-1617. O quadro pode ser visto no museu Mauritshuis, em Den Haag (Haia).
 
Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras.

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