Todos os tons de cinza

É pau, é pedra, é o fim do caminho

Perdemos o quinto maior museu do mundo.

É um resto de toco, é um pouco sozinho

Perdemos o maior dinossauro brasileiro já montado com peças originais.

É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

Perdemos Luzia, fóssil responsável por refazer todas as pesquisas sobre a ocupação das Américas.

É o mistério profundo, é o queira ou não queira

Perdemos uma das maiores coleções de arte indígena e a egípcia.

É o vento ventando, é o fim da ladeira

Perdemos fósseis de plantas já extintas.

É o fundo do poço, é o fim do caminho

Perdemos a capacidade de exigir a competência como o principal atributo para se administrar bem público.

No rosto, o desgosto, é um pouco sozinho

Perdemos décadas de trabalho e dedicação de antropólogos, arqueólogos, cientistas, historiadores, museólogos e pesquisadores.

É um pingo pingando, é uma conta, é um conto

Perdemos, diariamente, milhões de reais em privilégios para poucos, esquecendo o bem de toda uma sociedade, de toda uma civilização.

É a lenha, é o dia, é o fim da picada

O Museu Nacional ardeu 40 minutos sem receber um pingo de água porque os hidrantes próximos estavam vazios.

No seu interior, não havia sequer portas corta-fogo ou sprinklers, tecnologias inventadas no século passado.

Em 2004, jornais da Cidade do Rio de Janeiro estamparam a denúncia do secretário estadual de Energia sobre a precariedade das instalações elétricas do local.

Agora, falam em verba para reconstrução….

Ficamos, nós brasileiros, responsáveis pela perda de parte da História da Humanidade.

Ficamos sem poder mostrar aos nossos filhos muito do nosso passado.

Ficamos órfãos não de duzentos anos de História, mas de milênios.

Em uma das imagens televisivas da catástrofe, receio ter visto uma lágrima da estátua de Dom Pedro II localizada em frente ao Museu Nacional, e quase mesmo pude ouvir pedidos de socorro de seus lábios.

É a lama. É a lama.

 

Martha Aurélia Gonzalez, escreve quinzenalmente, para o www.clubedecronicas.com.br

Imagem: noticias.bol.uol.com.br

Inverno, 2018

Um comentário em “Todos os tons de cinza

  1. Adoro o clube de crônicas. Pena que não tem como cadastrar-me para receber as noticias. Aí, esqueço-me de acessar o site e perco essas ótimas crônicas.
    Um abraço a vocês.

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