Um gole no cálice do padre

No início deste ano, sob a pressão de obter resultados excelentes em exames de holandês, perguntei a um conceituado professor o que eu deveria fazer para aprimorar o idioma. Creio que eu apresentava sinais de aflição, assim como o restante dos estudantes, porque ele simplesmente interrompeu a aula e nos ofertou um sermão em forma de lição.

Aquele mestre, com sua aura juvenil, aproximou-se da minha mesa e fixou diretamente em meus olhos dizendo:

— Seja uma criança.

Aquela resposta silenciou a turma e ficamos todos de olhos bem arregalados buscando compreender aquela frase.

— Desculpa, o que o senhor quer dizer? — perguntei, toda desajeitada na carteira.

— Simples, minha cara! Quando nos tornamos adultos, matamos, aos poucos, a criança que existe dentro de nós. Esquecemos de ser o essencial e nos frustramos com o não necessário.

— …

— Porque você acha que as crianças aprendem muito mais facilmente que os adultos? Porque, para elas, não há pré-julgamentos, não há limites para serem quem são. Se quiser aprender algo novo, seja o que for, desperte a criança que há em você. Não tenha vergonha de errar; ria de suas cabeçadas. Não tenha vergonha de tropeçar, de cair, de se sujar. Lambuze-se na lama da vida.

Breve pausa, seguiu:

— Brinque com a estupidez de ser humano. Experimente sem medo. Cometa travessuras com as novas palavras. Você acabou de chegar em Amsterdam, acabou de renascer, ainda é apenas um bebê. Recomece e aceite o novo.

Pois bem, hoje, depois de uma intensa e longa sessão de terapia, pedalava com a intenção de cortar caminho pelo Vondelpark, ir para casa e preparar algo para comer. Entretanto, vi que a igreja da rua Jacob Obrecht estava aberta. Faz algum tempo que tenho curiosidade de conhecer o local.

Estacionei a bicicleta em frente à igreja e entrei de fininho. Que linda! Em estilo neobizantino e neorromânico, os arquitetos Jos Cuypers e Jan Stuyt capricharam no trabalho. Enquanto caminhava admirando o local, um senhor de cor escura e baixinho entrou e se aproximou dizendo:

— A missa será daquele lado.

Sabe quando você é pega de surpresa e fica meio sem reação? Então, respondi apenas “Obrigada!” e continuei meus passos curtos, observando o local. Bom, até o momento que adentrei ali, nem sabia que tipo de igreja era: católica, protestante? Também nunca tive a curiosidade de pesquisar pela Internet.

A Reforma Protestante aconteceu por toda Holanda; algumas vezes, o legal é entrar e descobrir o que é, independentemente de credo. Naquela grande e bela arquitetura, apenas quatro senhores e eu.

Pelo lado esquerdo, uma porta se abriu e apareceram dois padres. Ou seria o pároco e um ajudante. Não importa. Lá da frente, o simpático moço fez sinal para eu ir me juntar a eles. Alguns minutos depois, uma moça chegou apressada.

Olha, faz muitos anos que eu deixei de seguir religião. E, como estou em uma jornada por diferentes lugares do mundo em busca do meu próprio eu, tornei-me aberta a visitar e assistir a qualquer ritual de fé: catedrais católicas, igrejas protestantes, centros espíritas, sinagogas, templos budistas, terreiros de candomblé… Todos, para mim, são manifestações de esperança.

A última tinha sido a Basílica de São Pedro, no Vaticano, quando os meus pais foram conhecer o papa Francesco. Entretanto, outra hora falamos disso. E se você, assim como eu, foi criado em família católica apostólica romana, vai entender bem o que me aconteceu na Obrechtkerk.

Quando eu era criança e ia assistir à missa, tinha vontade de provar o que o padre comia e bebia. Daí cresci e passei por alguns ritos da igreja. Até comi o pão divino, mas beber do vinho? Não. Na crisma, o bispo até molhou a hóstia no “sangue de Cristo”. Mas, até hoje, não tinha conhecido ninguém “mundano” que tenha bebido na mesma taça do padre.

Já conheci quem fugia das aulas, no colégio de padres, e saqueava a sacristia para beber vinho. Ponto. Quando perguntava aos beatos, entendidos da Bíblia, por que só o padre bebe o que é “sagrado”, as respostas vazias eram preenchidas com “porque é assim que tem que ser”.

Agora, na Igreja, quando o senhor repetiu o sinal em forma de convite, eu simplesmente fui. Tomei um lugar bem mais ao fundo — quero dizer: 10 fileiras atrás do rebanho de cinco ovelhas. Eu queria paz e, como estava encantada com o local, seria válido e interessante participar daquele gesto de meditação (ainda que eu seja uma ovelha desgarrada; se preferir: carneiro).

Silêncio. Nada de cânticos estridentes. Que alívio! O padre iniciou a celebração. Enquanto isso, eu me encantava com as almofadinhas para se ajoelhar. Aconcheguei os joelhos — sem sentir dor, primeira vez depois do acidente. Que maravilha! — e fechei os olhos. Quando os abri, ainda estava no mesmo lugar. Nenhum santo apareceu para mim. Eu só estava estupefata de uma alegria travessa. Parecia levitar. Algumas sensações são difíceis de se explicar.

Contemplava a oportunidade de estar naquele templo ouvindo aquelas orações em uma nova língua. Era uma aula de holandês grátis! E, sim, naquele instante, eu me sentia uma criança, daquelas que pegam a conversa pelo meio, escutam, tentam prestar atenção, mas por alguma razão voltam a passear pelo vento. Estão ali, mas viajam na imaginação do presente.

Ria sozinha ainda ajoelhada enquanto passeava pelas imagens sacras. Observava cada um dos fiéis, alguns sentados, outros ajoelhados. Na verdade, só me dei conta de que permanecia ajoelhada em todo o ritual quando o padre disse para saudarmos uns aos outros. Entrei ali de curiosidade e estava macia comigo mesma por aceitar o quanto sou vulnerável ao velho mundo novo.

Hoje, neste meu vazio velho mundo novo, eu não quero e nem preciso provar nada para ninguém. Em cada diferença vejo similaridades e, assim, supero meus pequenos conflitos internos.

Quando chegou a hora da comunhão, não tinha nenhum adulto por perto para me dizer o que eu deveria ou não fazer. Entrei correndo na fila para alcançar o último lugar. Fui sem pensar. Um padre oferecia as hóstias e o outro tinha o cálice de vinho nas mãos. Enquanto caminhava, observei que apenas um homem alto, branco e careca, aparentemente vestido como um sacerdote, tomou o líquido. Os demais fiéis seguiam sem provar o “sangue sagrado”.

Quando chegou a minha vez, tomei a hóstia e fui caminhando devagar para direita, observando o padre, que, pela esquerda, me pareceu oferecer o cálice. Não hesitei: virei e voltei para a frente do pastor. Concordei com o que ele disse e bebi um gole de vinho no cálice do padre.

Sim, eu bebi do cálice proibido, quero dizer, sagrado. Eu sorri de alegria. Vinho branco de boa qualidade em um cálice dourado e prateado. Uau! Que tudo! Quase engasguei de emoção. Ninguém fica bêbado com um gole de vinho, mas eu fiquei embriagada de felicidade. Ainda tonta, cambaleando em júbilo, caminhei de volta para o banco da igreja. Não lembro quando tinha sido a última vez que comunguei. Deixa para lá.

Agi no impulso e nem pensei que, pela tradição, posso ser “impura” para receber o pão sagrado. Se Deus existe, Ele sabe das minhas confissões em terapia. E seja qual for a quantidade de ave-marias, pais-nossos e salve-rainhas, creio que ainda teremos uma eternidade de preces para superar gerações violentadas e limitadas abusivamente por palavras.

Enfim, quando voltei para o meu lugar, o que escrevo agora se desenrolou pela minha cabeça. Eu estava sorrindo e feliz por estar livre de limitações, ainda que verbais. Fiz uma simples travessura. O padre percebeu a minha molecagem e sorriu. Naquele momento, acreditei em alguma coisa que realmente fez sentido para mim, indiferente ao pecado.

Ao final da celebração, o gentil senhor do início veio ao meu encontro.

— U bent gezegend

— Desculpa, o que o senhor disse? Eu sou o quê?

— Você é abençoada! Quebrar regras é uma forma de libertação…

Acho que o meu ser refletia a minha meninice, porque o moço se espantou quando perguntou minha idade e outras informações pessoais:

— Você já é adulta! Mas eu vi uma menina durante a missa. Santa Mãe, como pode isso acontecer?

A conversa agradável ganhou um tom surreal, livre de amarras religiosas. Agradeci o momento. Quando seguia para o portão central, voltou e me perguntou:

— Você ainda sonha?

— Sim.

— Quando for dormir, pergunte a si mesmo: “Quem eu sou?” E deixe a criança existente dentro de você conduzir seus passos. Seja o que estiver procurando, está dentro de você. Quando estiver pronta, o Universo saberá lhe dizer.

Até agora, eu me pergunto se fiquei bêbada com aquele gole de vinho ou se aquele alegre, modesto e gentil homem é o que chamamos de anjo.

Maio de 2016

Ilustração: “Dromenvangers” – Obra de Senad Alic.

Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras.

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