Vita in campagna – Vida no campo

Se tem algo de fascinante nos vilarejos italianos, devo citar a espontaneidade dos encontros casuais recheados de boa comida e bebida. Passamos horas em torno a uma mesa bebendo, comendo e proseando. Nesses momentos, a vida ganha um gingado gostoso no prazer de se estar em companhia. Sabe aquelas cenas de filmes onde o calor humano dança tocando e contagiando a todos? É assim a vita in campagna; ou seja, a vida no campo.

Noutro dia, fui parar em um almoço comunitário, daqueles com paisagem e personagens fabulosos, na montanha em meio à floresta. Do tipo natureza total, onde o banheiro é dentro do mato. Coisa para jovem? Engano seu, porque estávamos sentados em uma grande “tavolata” (mesa) rodeados por desde crianças de colo até sêniores de 80 anos.

A história começa mais ou menos assim: na sexta-feira, passei na casa de uma amiga para levar um pedaço de bolo preparado por mim. Antes de me despedir, fui perguntada se eu estava livre no domingo. Com minha afirmativa, veio o comentário de um churrasco com o grupo de alpinistas da região onde moramos… Bom, ainda no portão, um casal de amigos parou para dar um “oi” e, ali mesmo, decidimos o menu e o compromisso de cada um levar algo para ser compartilhado.

— Churrasco combina com vinagrete e arroz branco — comentei. Então, fiquei responsável por esses dois pratos. O passar da conversa se estendeu e o grupo cresceu. No domingo, éramos em uma soma de dezenas de pessoas divididas por algumas longas mesas.

Imagine churrasqueiras improvisadas no chão e fartura de comida para os participantes. Era um girar de panelas, tigelas, garrafas e um zum-zum de falas altas e alegria — tudo em modo tão simples e encantador. Por um momento, fiquei observando como a vida em comunhão é a coisa mais basal da existência — mas, na verdade, é um luxo para poucos.

O fato de ter sido “adotada” pelos italianos tem me despertado para um mundo mágico e peculiar. É um desafio constante baseado nos parâmetros capitalistas ocidentais, onde ter vale mais, ser vale menos. Todavia, a vida no campo permite um chamado para nossa essência, um desacelerar criativo e produtivo em um cotidiano de provocações e reflexão sobre o realmente desejado por nós para nós mesmos.

Compartilhar do alimento é transmitir bagagem de vida. Nessas reuniões eventuais, a culinária se revela como troca de experiências. Comer em companhia é linda forma de nos comunicarmos e de nos conhecermos melhor.

É como provar o frango marinado de uma amiga. Ela organiza tudo com muito amor e passa horas na cozinha preparando um prato. A ave sacrificada é uma oferta do vizinho; daí, acrescenta-se como gratidão suco de limão, alho, pitada de sal, algumas colheres de azeite, alecrim e muito cheiro verde colhido na horta. O sabor da iguaria demonstra boa parte da personalidade daquela mulher, doando o melhor de si para o próximo.

Ou mesmo o simples vinagrete batizado durante o almoço como salsa fresca e buona, receita brasileira, preparada com ingredientes colhidos em diferentes hortas: minha, da vizinha, dos amigos… — e com pitada de sabor misto. Bem, como eu, nesse emaranhado de origens, culturas, idiomas e costumes, buscando ser aberta para adaptar-me ao novo.

A vida no campo tem um pouco daquelas histórias de nossos avós, quando o passado de gosto nostálgico ganha sabor de presente. Um enrolar de casos, choros, discussões, fofocas, emoções diversas, risadas e muita gesticulação de braços e mãos. Ah, sim! Por aqui se diz muito com as mãos. É um querer-se bem em sua mais crua imperfeição.

Afinal, na segunda-feira a janta é na casa de… Ops! Devo lembrar de colher os figos para acompanhar o queijo e vinho.

Setembro de 2018

Foto de Zosia Korcz em Unsplash

Edsandra Carneiro escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras

 

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