Você se lembra?

( Por Lisandro Gaertner)Lisandro

Lembra quando acordávamos nos domingos de manhã na casa de pessoas estranhas após horas de bebedeira e outros abusos? Lembra dos corpos estendidos em camas, sofás, poltronas e até no chão? Lembra de escrevermos de batom na cara dos que caíam bêbados mais cedo? Lembra das filas para usar o banheiro? Lembra de olhar pelas janelas em busca de algo que sabíamos não estar lá?

Lembra quando íamos em padarias estranhas comprar refrigerante, pão e mortadela para o nosso tradicional RPM de café da manhã? Lembra de nos perdermos e conversar com gente esquisita que sai de casa nos domingos de manhã? Lembra dessa gente? Dessa gente como a gente? Lembra dos porteiros que sabiam tudo que tínhamos feito mas sorriam pois queriam estar lá?

Lembra da mesa posta? Lembra de tomarmos café juntos? Lembra dos risos, dos papos e dos constrangimentos causados pelos beijos e pelas brigas do dia anterior? Lembra como tudo era ao mesmo tempo recordado e esquecido em prol da nossa unidade “familiar”? Lembra que achávamos que nunca iríamos nos separar? Lembra que éramos falsos? Lembra que queríamos ser sinceros? Lembra?

Lembra de assistirmos TV aberta? Lembra dos programas de umbanda, pesca, caminhões, variedades e sorteios que assistíamos em busca de assunto para termos o que falar? Lembra de assistirmos filmes velhos em VHS? Lembra de sabermos diálogos inteiros? Lembra de encenarmos os filmes que íamos assistir? Lembra de acharmos tudo muito chato?

Lembra de ficarmos em silêncio nos acarinhando e fingindo não sentirmos nada uns pelos outros?

Lembra de lermos os jornais? Lembra de lermos os cadernos de empregos, imóveis e carros projetando o que seríamos no futuro? Lembra que podíamos tudo? Lembra que fizemos nada? Lembra dos planos que fazíamos para a segunda feira? Lembra que sabíamos que nunca iríamos realizá-los?

Lembra dos risos e dos delírios que a ressaca e o rebate da mesma nos provocavam? Lembra daquilo que achávamos tão engraçado que nunca iríamos esquecer? Lembra de não lembramos exatamente o que foi? Lembra que esquecemos? Lembra?

Lembra de decidirmos corajosamente ir às ruas? Lembra do nosso destino? Lembra que as horas de discussão e indefinição sempre davam no mesmo caminho? Lembra de irmos no Sindicato do Chopp?

Lembra do caldo de feijão com cachaça? Da picanha fatiada na manteiga? Do chopp Brahma geladinho que na época achávamos genial? Lembra da fome? Lembra da sede? Lembra? Lembra?

Lembra de nos despedirmos em pontos de ônibus, táxis e trens? Do metrô, não. Do metrô, você não lembra, pois naquela época, como dizia o saudoso João Saldanha, o metrô era como o restaurante que fecha pro almoço e não abria aos domingos. Lembra que reclamávamos disso? Lembra que sempre citávamos o João Saldanha? Lembra de rirmos disso mesmo sem achar graça? Lembra?

Lembra que sentíamos saudades mesmo antes de irmos embora? Lembra que nos abraçávamos e fingíamos que a lágrima furtiva era apenas causada pelo sono? Lembra de abraçar nunca mais querendo soltar? Lembra dos beijos nos rostos que eram pra ser nas bocas? Lembra do amor que sentíamos? Lembra? Lembra?

Lembra de chegar em casa e nossos pais perguntarem: “Como foi a festa?” Lembra de mentir? Lembra de dizer: “Normal, normal”? Lembra de ir pro seu quarto, deitar na cama e lembrar? Isso, lembrar. Lembrar de tudo, como se fosse ontem, pois foi ontem. Lembra? Lembra?

Eu lembro? E você?

Você se lembra?

Lisandro Gaertner é cronista convidado do Clube

Imagem: A Midnight Modern Conversation pintura de William Hogarth

 

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