Desdiálogo e a Teia

(Por Eduardo Selga) Quem conseguiu, no decorrer da vida, adquirir alguma experiência, argúcia ou sensibilidade já deve ter percebido: conversar ensimesmado é coisa que cabe muito bem às aranhas, em sua infinita paciência tecedeira. Nós, embora tenhamos uma linguagem cuja mecânica é uma tessitura bordada na complexidade, portanto rica, de um modo geral parecemos ter certa má vontade no exercício do verbo. Usamo-lo como quem chuta pedrinhas na rua ao caminhar, quase como se a linguagem fosse desimportante para a nossa espécie, mero acessório.

Não é bem isso. No parágrafo acima ainda não consegui dizer o que eu pretendia, mas quase. Tentemos uma vez mais. É que certas sutilezas do pensamento e das emoções humanas não se veem redondamente traduzidas pela linguagem, por mais elaborada que seja, e lidar com essa insuficiência provoca cavidades nos significados. Mal ditos. Desditos. Por isso, muitas vezes, os equívocos na compreensão dos diálogos. Quem sabe eles inexistissem? E se cada indivíduo fosse autossuficiente, a um só tempo falante e ouvinte? Mas a vida monologada é uma impossibilidade, posto que não somos aranhas. Embora tentemos construir labirintos de espelhos, íntimos e sem fim, o máximo que conseguimos é erguer um isolamento temporário. Quando menos esperamos, surge o oposto, nosso Minotauro, e os espelhos trincam.

Se conversássemos com nós mesmos, e honestamente nos ouvíssemos, estaríamos, nesse sentido, colegas das aranhas, cujo trabalho parece exigir grande introspecção. Ousaria mesmo dizer que, meio a essas ponderações sem o rigor da denotação, alguém, dia desses, descobrirá o óbvio: elas, enquanto tecem, cantam para si como faziam ou ainda fazem nossas mães e avós durante a lavagem de roupa ou a feitura das refeições. E cantar-se é se conversar, é sabido. Ou melhor: é, ao avesso do espelho de que falei, dialogar com o outro eu guardado nalgum canto do ser.

Tenho a impressão de que a parcela brasileira da humanidade, qual seja, nós os incultos e belos da América do Sul, houve um tempo em que dialogávamos mais. E nada, nada, foi ainda ontem. Sim — como não? —, havia o bate-papo oblíquo entre Marias e os acaloramentos verbais entre Josés por causa de paixões futebolísticas, mas também existia a palavra menos vaga entre Josés e Marias enquanto povo. Discutíamo-nos à nossa moda. Éramos mais sólidos (ou menos frágeis, vá lá). Ao contrário de hoje, em que a vaguidão prepondera em muitos discursos, mesmo em alguns verbalizados por gente robusta.

Se antes parte de nós se amofinava com outro bocado do povo porque nossas palavras circunavegavam quase exclusivamente o futebol, a novela e outras carnavalidades, e semelhante atitude era considerada qualquer coisa de muito vazio e indigno de um povo que se pretenda evoluído, hoje a política, ontem exilada das discussões corriqueiras, assume as rodas de botequim. Virou petisco. Entretanto, não raro, com ares da mesma vagueza que está na raiz de alguém torcer pelo Flamengo ou pelo Fluminense. Ora, no oco dessa idolatria pelo time de futebol há mais solidez do que na vaguidão política.  Ou seja, e tornando ao já dito, antes éramos mais sólidos (ou menos frágeis, talvez). E se dialogávamos mais conosco, necessariamente éramos mais ensimesmados, na medida em que no ouvinte há muito do falante, quando estes se consideram sujeitos de uma mesma cultura.

Hoje, brasileiros, não apenas abrimos mão do diálogo, paulatinamente e cada vez mais: penso esteja em marcha, a galope, um rompimento ainda maior. O silêncio (não aquele do tipo aracnídeo, feito de serenidades e verbos atados como fios), muitas vezes assumindo ares de palavras de ordem soltas, desordenadas a torto e à direita, sem contextura, me parece estar se radicalizando. Birrento e mimado, esse menino mau, esse silêncio tal, por vezes não conhece mais o povo que o produziu e dele foi vítima: ele agora quer território próprio, berço esplêndido onde possa acalentar outra narrativa mesma, outro brado retumbante de um mesmo povo, agora sim, heroico. Ou seja, a mesma historinha, mas sob nova direção e com outra embalagem, mais bonita e funcional.

Trata-se do separatismo. Falo dos Brasis sulinos e seus gaúchos, matutos e gringos, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro; de São Paulo; de Pernambuco. Segmentos dessas regiões pretendem romper a teia, desdialogar de vez com os outros brasileiros e erigir suas próprias tramas, como se não houvesse nos brasileiros dessas regiões a brasilidade que permeia o país. Como se não coubessem mais, ou o Brasil estivesse descabido para eles.

Se há ou não justeza na reivindicação, cujo caráter folclórico de há pouco anos se diluiu muito, pouco se me dá. Interessa mesmo, presentemente, é o silêncio e a fratura exposta do diálogo rompido. Ou melhor, a vontade nenhuma de retomá-lo. Mas talvez não haja apenas o lado negativo, afinal: pode ser um esplêndido mote para que o Brasil restante outra vez se ensimesme e, portanto, teça consigo mesmo diálogos mais bem amarrados. Sem nós cegos.

Foto:  http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2016/08/separatismo-brasileira.html

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