Estado de Deus-nos-acuda

Quando o Papa escolhido foi um argentino, desconfiei de que Deus andava meio de mau humor com a gente. Sei do significado para a América Latina e reconheço o milagre: um argentino humilde. Mas não deixou de ser uma provocação divina com seus conterrâneos.

Não lhe tiro a razão. O Brasil vive, há tempos, em estado de Deus-nos-acuda. Uma sobrecarga de trabalho que exaure qualquer um. Além do mais, toda essa hora extra feita pelo Altíssimo com a gente fica por isso mesmo. Não consegue nem uma folga! Lá em cima, não há Justiça do Trabalho.

Então, Deus vai se queixar para quem? Para o bispo é que não é.  E, ainda que muitos reconheçam seu labor, o que dizer? Deus lhe pague? Descanse em paz? Parece ironia, não?

Às vezes, penso que ocorreu, no Brasil, um problema na tradução para nossa língua dos Dez Mandamentos: engoliram a palavra “não”. Aí, do sexto em diante, ficou complicado: matarás, adulterarás, furtarás, dirás falso testemunho, cobiçaras a casa e a mulher do próximo. Não dá a impressão que essas são as regras?

É bem verdade que Deus, sendo brasileiro, poderia ter supervisionado melhor essa tradução. O trabalho ficou meio ao Deus-dará. Ainda mais sendo onipresente e onisciente, como é que Ele deixou escapar essa? Deus, me perdoe o julgamento.

Provavelmente, a culpa foi do estagiário. Em vez de estar fazendo o que lhe mandam, ficou postando música nas nuvens ou saiu para dar uma voada. Assim na Terra como no Céu.

Aliás, como CEO do Céu, Ele tem feito um trabalho de elevado nível. Mas até as altas administrações possuem pontos fracos. Nosso País parece ser um deles. Como dizem por aqui, quando o Diabo põe o rabo em cima…

Uma das explicações está nas pessoas que elegemos. Há tempos, o Brasil só têm Governos que não são de Deus, não!  E, na maioria das vezes, quando se dizem de Deus, a situação fica ainda pior. Como se a salvação do povo estivesse em cheque… Digo, em xeque.

Deus é bom, mas não é bobo. Sabe que, quando um político vem com esse papo de “Segura na mão de Deus”, é a maior furada para o Criador. Ele dá a mão, os caras querem logo o braço. Isso, quando não lhe afanam o anel e o relógio.

Por essas e por outras, nosso País é o único que não O deixa descansar. Não à toa, Ele tomou esse chá de sumiço. Devíamos ter lhe dado férias no Carnaval de 2014. É uma época em que o pessoal fica com o Diabo mesmo e, garanto, não teríamos apanhado de 7 da Alemanha. Aquilo foi um sinal. Mas, quando se fala em sinal dos céus, o povo aqui só quer saber de wi-fi. Deu no que deu.

Esperamos que o inferno astral do Divino termine e Ele volte logo. Enquanto isso, façamos a nossa parte.  Não podemos deixar todo o trabalho de arrumar a casa só com Ele. Há muita limpeza e faxina a ser feita: escolas reprováveis, saúde agonizante e total falta de ética e vergonha de muitos homens públicos ou não.

Não dá mais para ficar esperando milagres. Tá na hora de trocar a água benta pela água sanitária. Com fé e determinação a gente consegue. Se Deus quiser!

(Primavera, 2015)

Foto: Google Imagens

Martha Gonzalez escreve, quinzenalmente, aos domingos

www.martha@clubedecronicas.com.br

 (publicada originalmente em 2015 com o título Que horas Ele volta ?)

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