Aqueles dias

Ele ficou pronto primeiro. Depois de uma hora, ela aparece.

— Que tal?

— Esse vestido, amor…. Não está muito justo?

— Tá me chamando de gorda?

— Claro que não, Mari! Mas uma roupa tão colante… Será adequada para um casamento?

— Tá dizendo que sou cafona?

— Não, amor… Você não entendeu…

— Então, tá me chamando de burra.

— Mariana! Você não tá bem, não!

— Ah! Obrigada por me chamar de louca. O que mais, Carlos Alberto? Além de gorda, cafona, burra e maluca. Do que mais você me acusa?

— Nada! A propósito, suas regras…

— Que regras, Carlos Alberto? Você é quem gosta de dar ordens aqui. Eu estou sempre concordando com suas bobagens. Faço tudo para agradar. Você nem percebe, você…

— Amoooor, oi! Estou falando da sua menstruação. Chegou?

— Olha só, meu querido! Vou te falar uma coisa…

— Ih! Você está parecendo aquela presidenta…

— O que você quer dizer com isso?  Por acaso não sei administrar a casa? Faço vista grossa às coisas importantes? Que crime eu cometi, Carlos Alberto? Ou meu cabelo tá muito armado?

— Não, Mari, seu cabelo está lindo. Foi o jeito de você falar…

— Que topete hein! Ironizando minhas palavras… Estou sempre errada, não é Carlos Alberto?

— Claro que não. Agora mesmo disse uma verdade!

— Hã?

— Quando afirmou estar errada, você acertou! Háháhá. Vem cá, amor, tô brincando. Vambora!

— Não achei graça nenhuma! Ainda mais com esse seu arzinho superior me explicando uma piadinha infame. Não vou mais a lugar nenhum! Cansei.

— Que isso, Mari? Pelo-amor-de-Deus! É o casamento do meu chefe. Não posso faltar. Deixa de frescura, já estamos atrasados.

— Vá sozinho.

— Ah! Mari. Que graça tem ir sem você, amor?

— Até parece, Carlos Alberto…

— Tá bom, então, vou indo.

— Ah é? Que consideração! Agora pouco, minha companhia era importante. Em menos de um minuto, o senhor já está pronto para a night.

— Mas foi você quem mandou eu ir.

— E desde quando você faz o que eu mando? Olha o armário da cozinha: consertou?  Há quanto tempo lhe peço isso?

— Você não vai querer que eu conserte o armário da cozinha agora, não é?

— Eu não quero mais nada. Só quero paz!

— Hum, hum…

—Que “hum, hum” foi esse, Carlos Alberto?

—Meu “hum, hum” normal.

— Você tá de deboche comigo! Conheço esse “hum, hum” de outros carnavais. Irônico, sarcástico. Não sei como você pode ser tão insensível. Tinha tudo para ser uma noite agradável, encontrarmos amigos, dançarmos… Enfim, nos divertirmos. Que capacidade de estragar as coisas. Meu Deus! Onde está aquele homem com quem eu me casei?

— Está aqui, Mari, querendo ir a outro casamento com você. Querida, amanhã eu conserto a porta do armário e a gente discute a relação, pode ser?  Bandeira branca, amor, não posso mais! Vamos ao casório e conversamos depois, ok? Você tá linda, vai ser a mulher mais bonita da festa! Vamos indo?

— Tá… Tudo bem… Tem razão. Me dá só mais uns minutinhos. Vou precisar trocar de roupa.

Martha Gonzalez escreve, quinzenalmente, aos domingos

Imagem: nikkeyweb.org.br

(Inverno,2016)

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