Telemarketing

— Alô! Sim, é ele. Boa noite… Bom relacionamento com o banco? Deve haver algum engano. Mal piso na agência. Meu gerente mudou e nem conheço o novo. Sei… Sei… Ai de mim se não pagasse em dia. Se os juros são extorsivos para mim que estou na categoria bom relacionamento, imagina se estivéssemos de mal. Olha, Márcia; é Márcia, né? Escuta, Mirna, você está no seu papel.  Ok! Mas não tenho interesse… Tá…Tá…  Se for muito, mas muito rápido, pode dizer o nome do produto. Não. Não tenho interesse.Sim, eu interrompo porque já sei o final. Qual o desembolso por tantas vantagens?  Nada agora, né? Aí, passa o primeiro ano, chega uma anuidade alta e, para eu me livrar de vocês, só fazendo promessa ao santo das causas impossíveis.

Não! Não quero. Sim, deve ser ótimo para o banco, não para mim. Não! Não quero escutar. Olha: já tenho dois cartões exatamente para o caso de problema com algum. Vou desligar. Obrigado. Não, Márcia. Mirna, Mirna. Que parte do “não tenho interesse” você não entendeu? Você sabe que dia é hoje? Sim, dia 31, e o dia da semana, as horas? Pois é. Você gostaria de ser incomodada na sua casa numa sexta-feira à noite? Ah! Eu fui contemplado. Ô, Márcia, você tá ligando de que planeta? Hã, hã. Engraçado, quando preciso de algum serviço por telefone, vocês só faltam me perguntar se minha cueca é P, M ou G, mas, quando faço uma perguntinha simples, você não tem autorização para responder! Deixa eu registrar uma coisa: esse banco não oferece todo tipo de serviço durante 24 horas. Às vezes, ligo e sou informado, por uma gravação, dos horários e dias de atendimento. Por que diabos, então, devo estar disponível para vocês a qualquer hora? Me dê um motivo. Um só! Além do mais, tenho imenso respeito ao seu tempo. O contrário não é verdadeiro. Você liga, atendo prontamente. Não apresento nove opções e, em cada uma delas, peço para você repetir o dia de seu aniversário, o ano do nascimento, onde fez compras, se é Ivete ou Cláudia Leite. Márcia…Tá! Mirna-Senhor. Que obsessão você tem pelo nome! É só um nome de guerra mesmo. Não, não estou insinuando nada. Olha, se eu praguejasse seria contra os donos do banco. Você está fazendo seu trabalho. Não. Não venha me dizer que o banco está me dando vantagens. Aí é você quem está me ofendendo. Tenho neurônios, Mirna!

Vou lhe dar uma definição de banco: “É aquele lugar em que você precisa provar ter dinheiro para conseguir um empréstimo.” Conhecia essa? Acho que é do Woody Allen. Ah! Você não conhece os clientes, mas o Woody…  Deixa pra lá, Mirna. Você também não conhece cinema. Bem, vou desligar. Boa noite. Só um pedido: tira meu nome dessa lista, tá? Mirna, você me ouviu? Alô, alô, filha da…Ah! voltou… Que voz é essa, Mirna? O que houve? Não, não tem nada bem. Mirna se eu fui grosseiro, me desculpe. O que foi? Às favas com esse regulamento, como você vai continuar importu…Quero dizer, ligando para outras pessoas chorando?

Você nunca foi ao cinema? Ah! É o seu maior sonho? Sua cidade não tem? É, a crise está forte, até um cineminha não é mais um programa barato. Como é? Se batesse sua meta este mês você realizaria seu sonho. Falta muito? Só uma venda! Então, boa sorte, Mirna, você vai conseguir.

Sei. Amanhã é dia primeiro e são dez da noite. Porra, Mirna, Match Point! Você me derrubou. Em homenagem ao Woody Allen, vamos botar um ponto final nisso. Me diga logo o que eu preciso fazer para adquirir esse produto.

Após ouvirem a gravação, todos bateram palmas.O caso Mirna Match Point, como ficou conhecido na empresa, foi apresentado com grande entusiasmo pelo facilitador ao grupo preparatório de futuros atendentes de telemarketing. A mensagem era clara: não há limites para conseguir vender os produtos bancários, e cada um está livre para inventar sua história, seu roteiro, mesmo não sendo nenhum Woddy Allen.

 

Martha Aurélia Gonzalez escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras.

Imagem:mundobesteirolwordpress.blog

(Primavera, 2016)

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